domingo, 5 de maio de 2013

CARTA A UM JOVEM DECEPCIONADO - MARCELO LEMOS NO GENIZAH


Querido Agostinho - carta a um jovem decepcionado







Querido irmão Agostinho (vou chamá-lo assim em homenagem a St. Agostinho, inspiração da fé reformada, e quem sei que o irmão tem lido...), um dos meus motivos de contentamento no Senhor é ter a oportunidade de falar a pessoas que, como eu, já sofreram sob as garras de um religião legalista, seja onde for, no Pentecostalismo ou em outro lugar. Talvez você já tenha lido uma série de cartas que escrevi a uma outra amiga, “Cartas a Lene”, na qual eu busco, com minhas limitações, explicar alguns fundamentos da fé cristã, sob a ótica da Reforma. Mas, caso não tenha lido, talvez seja interessante dar uma olhada.

Provavelmente eu não conseguiria falar de tudo que li em sua carta, até porque algumas questões são bem existenciais, e somente o Espírito Santo pode lidar com isso. Seja como for, sua carta me tocou bastante, e eu me vi nela em praticamente todas as linhas, inclusive em sua busca de conforto no ateísmo, deserto no qual eu também pisei. Felizmente, Deus mesmo revela a nós a única fonte de Esperança, que é Seu Filho. Por isso Jesus mesmo definiu a sua mensagem como “evangelho”, ou seja “boas notícias”. Mas, não era “um” evangelho qualquer, mas “O Evangelho”. Talvez saiba que esse termo já era bem conhecido no mundo antigo, e as pessoas estavam acostumadas a ele. Elas, por exemplo, poderiam utilizá-lo ao falar do fim de uma guerra, ou o retorno de um filho. Ou seja, havia vários evangelhos, várias boas noticias, como hoje também. A esperança anunciada por Cristo é algo tão maior, e tão mais sublime, que não se pode listar junto as qualquer outra noticia, seu convite aos homens é “O Evangelho”.

Bem, já naquele tempo algumas pessoas achavam que era coisa de lunático, até mesmo seus parentes duvidaram. E ainda hoje precisamos responder a essa pergunta: Cristo foi um lunático, ou era realmente o Filho de Deus? Pela fé, a mensagem de Cristo é simplesmente a coisa mais importante que um homem pode ouvir. Na verdade, é a única coisa importante, e faz compensar todo o resto. Vamos dar um olhada?

Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei. Pois desci dos céus, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou. E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia...” (João 6:37-39).

Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai” (João 10:28-29).

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança que jamais poderá perecer, macular-se ou perder o seu valorHerança guardada nos céus para vocês que, mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo” (1 Pedro 1:3-5).

“Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8:38-39).

Quando me vi num beco sem saída, quase me largando por mera indecisão nos braços do agnosticismo, foram essas palavras que me salvaram. O Espírito Santo simplesmente disse: “Haja luz!”, e eu me lançei nos braços de Cristo. Hoje chega a ser divertido lembrar da sensação de pensar: “Meu Deus! Como eu não vi isso antes! Quanto tempo eu perdi?”. Foi uma experiência realmente marcante. Para um jovem que cresceu cultivando um medo monstruoso de Deus, e para quem a salvação era conquistada como que por meio de barganhas infindáveis com o Inatingível, quando entendi que “Aquele que nem mesmo seu próprio Filho poupou, ao invés disso, o entregou em nosso favor, como não nos dará também com ele todas as coisas? Se é Deus quem os declara justificados, quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?” (Romanos 8.32.33). Você assistiu ao filme um “Um Grito de Liberdade”? O filme é baseado numa história real, acontecida na Africa do Sul, e conta a corrida desesperada de um homem para fugir do regime que iria matá-lo. É simplesmente desesperador. Contudo, no fim, o herói, já quase desiludido, sem forças, praticamente resignado a aceitar o fim inevitável, levanta os olhos e o que vê? Seus olhos encaram um lindo horizonte, e sua alma se embrigada com o cheiro da Liberdade... Aquele fugitivo condenado era eu, e também você.

Algo muito parecido relata o grande reformador Lutero. Assim como muitos evangélicos de nosso tempo, o monge agostiniano vivia atemorizado, cercado por uma religiosidade popular que sufocava a graça do Evangelho, e fazia com que ele constantemente duvidasse de sua própria salvação. Sempre me impressiono ao pensar nisso, e lembrar que existe uma semelhança incrível entre a ignorância daqueles dias com a de hoje. O pior é que os evangélicos de hoje deveriam defender o que herdaram de Lutero, não é mesmo? Voltemos ao relado de Lutero; sua conversão também foi um sonoro Grito de Liberdade:

Minha situação era que, apesar de ser um monge impecável, eu me punha diante de Deus como um pecador perturbado por minha consciência e não tinha confiança de que meus méritos poderiam satisfazê-lo... Noite e dia eu ponderava, até que via conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que ‘o justo viverá pela sua fé’. Então, entendi que a justiça de Deus é a retidão pela qual a graça e a absoluta misericórdia de Deus nos justificam pela fé. Em razão desta descoberta, senti que renascera e entrara pelas portas abertas do paraíso. Toda Escritura passou a ter um novo significado [...] esta passagem de Paulo tornou-se  para mim, o portão para o Céu”.

Assim como hoje, nos dias de Lutero as pessoas lutavam com uma visão equivocada do Evangelho, e uma noção incompleta da Graça, e da justificação, enfim. Gosto de um caso ocorrido com o reformador, que já contei aqui no blog num artigo que escreve para outra pessoa, no qual um senhora escreve a Lutero, desesperada querendo saber se poderia ter certeza da sua salvação. A resposta de Lutero para Barbara Lisskirchen é maravilhosa, mas infelizmente não a vemos na maioria dos púlpitos de hoje!

A mais sublime de todas as ordens de Deus é esta, que mantenhamos diante de nossos olhos a imagem de seu Filho querido, nosso Senhor Jesus Cristo. Todos os dias ele deve ser nosso excelente espelho, no qual contemplamos o quanto Deus nos ama e quão bem, em sua infinita bondade, ele cuidou de nós ao dar seu Filho amado por nós. Desse modo, eu digo, e de nenhum outro, um homem aprende a lidar adequadamente com a questão da predestinação. Será evidente que você crê em Cristo. Se você crê, então será chamada. E, se é chamada, então muito certamente está predestinada. Não deixe que esse espelho e trono de graça seja quebrado diante de seus olhos [...] Contemple o Cristo dado por nós. Então, se Deus desejar, você se sentirá melhor”.

Não faz sentido que aquele que crê em Cristo se perca em especulações infindáveis. A Bíblia ordena que creia, e ele crê. Você crê em Cristo? Pergunta Lutero. Se a resposta é positiva, então estás salvo! Parece bom de mais para ser verdade, eu pensava! Mas é simplesmente a linguagem da própria Escritura!
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; (Efésios 2:8-9)

Quem nEle crê não é condenado; ... (João 3:18)

... os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. (Rom 8:28-30)
Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2Tm 2:13)

Infelizmente, e mais uma vez voltamos à mesma tecla, o evangelho de muitos hoje passa longe disso. Estamos sendo constantemente avaliados quanto aos bens que possuímos, os jejuns que fazemos, o estilo musical que preferimos, quantos dons temos, se falamos ou não “em línguas”, se fomos batizados num rio ou numa banheira, e assim por diante. Mas tudo que o Evangelho diz é: “Creia no Senhor Jesus, e serás salvo!”Ainda que o nova vida implique, por natureza, em muitas mudanças e transformações, ela não precisa de nada além da fé para começar. Ela só precisa que alguém, por mais pecador possa ser, creia que Jesus é o Salvador. Qualquer um que tenha fé em Cristo, será salvo.

Existe um certa tentação ao escrever estas linhas a você, Agostinho. Eu poderia apontar os abusos da Igreja dita “evangélica” em nosso País, ou desmandos pastorais, a hipocrisia de muitos fiéis, o legalismo de quase todas as pregações. Mas que fruto isso lhe traria? Mais decepção? Mais uma dose em sua taça de desengano, talvez? Como isso seria aquém do Evangelho! Porque ainda que você um dia venha a perder toda sua esperança, em todas as coisas ao seu redor, a uma única boia você precisa estar agarrado: “Quem nEle crê não é condenado; ...” (João 3:18).

Meu conselho é que você leia cada uma dessas passagens, duas ou três vezes, ou quantas vezes achar necessário para digerir o quanto são incrivelmente cheias de segurança e certeza. Ao ler, dobre seus joelhos e pergunte a Deus se essas palavras são verdadeiras. “Senhor, mostre-me se essas palavras são verdadeiras!” Eu vou orar por você, e com você. Nessa primeira semana de Maio inteira, sempre as 00:00. Pode escolher outro horário se quiser. Leia e faça essa oração quantas vezes precisar. Se quiser, pode terminar sua oração com o Kyrie Eleison, uma das orações mais antigas da Igreja: Senhor, tem misericórdia de mim! Cristo, tem misericórdia de mim! Senhor, tem misericórdia de mim”.

Não sei quando vai acontecer, talvez agora mesmo, mas você fará essa oração a Deus:

“Cristo, conheço meus pecados, o Senhor também; conheço minhas duvidas, o Senhor também; mas sua palavra disse que qualquer um que crer em Ti será salvo. Senhor, creio em Ti. Senhor, tem misericórdia de mim! Cristo, tem misericórdia de mim! Senhor, tem misericórdia de mim. Senhor, creio em Ti!.

Essa fé é a única esperança para a minha alma, e para a sua também. Amém.




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