sexta-feira, 25 de julho de 2014

DUAS COISAS SOBRE ISRAEL - PAULO CILAS


                            


          Frente aos últimos acontecimentos na faixa de Gaza sinto a necessidade de falar um pouco sobre Israel aos olhos do mundo. Claro que não posso ter a pretensão de ser definitivo  e também achar que tenho todos os argumentos, mas contudo vou pontuar  pelo menos duas coisas:

1 - Israel biblicamente falando . Dentro do plano de Deus Israel foi relevante porque dele saíram as leis e os profetas que mantiveram a revelação em evidência. Sendo que as  "leis de Moisés" até hoje influenciam praticamente o mundo todo. 
Entretanto, do próprio Senhor vêm palavras duras contra Israel: Povo de dura cerviz, que busca outros deuses, rebelde. E a principal palavra, descrita por João: “Veio para os que eram seus( Israel), mas os seus não o receberam”, ou seja, Israel rejeitou a Jesus. Simplesmente a Jesus. E as consequências de todo esse descaso passam pelo cativeiro a partir do império assírio vindo a seguir o Babilônico, o Medo-persa, Greco-macedônico e o Romano. Isso do tempo antigo até Cristo. Já depois de Cristo esse povo sofreu o terrível cerco no ano 70 dC  sendo espalhado pelo mundo todo e vindo a sofrer no holocausto( segunda guerra) a mais infame das perseguições. "Caia sobre nós e sobre nossos filhos o sangue dele, Jesus!" Parafraseando Chicó - personagem de Ariano Suassuna: "Ôh palavrinha mais sem jeito".
         Desta maneira é até risível que crentes busquem nos rituais judaicos (dos quais a própria bíblia diz que eram apenas sombras do que haveria de vir - Jesus -  e totalmente falíveis Hb.8,9,10) pretensas espiritualidades que lamentavelmente têm tomado lugar em muitas de nossas igrejas. Quem não já viu símbolos judaicos, bandeiras e afins em nossos templos? E os rituais que já não fazem mais sentido em Cristo. E ainda há os que fazem de viagens a Israel algo místico como se lá houvesse mais de Deus do que em outro lugar. 
De fato, conhecer Israel deve ser desejável e emocionante, mas somente pelo teor histórico, geográfico e arqueológico.
2º -  Por outro lado devemos estar atentos à distorção da historia, principalmente patrocinada e mantida por partidos de extrema esquerda, como alguma corrente hoje no Brasil, com viés ateísta do mundo todo. Tais correntes demonizam o estado de Israel e colocam os palestinos como vítimas ( sabemos que sempre há vítimas inocentes em qualquer guerra e em todos os lados). Usam ainda o argumento que o “império americano” está por trás também de tamanha” injustiça”.  Só que a realidade da história é bem outra. Com exceções, a maioria dos vizinhos de Israel não quer a existência dele. Mesmo o retorno do Estado de Israel se dando de maneira legítima - aquela região, depois de Cristo, sempre foi alvo de disputas  ao longo dos séculos por parte de romanos, otomanos, britânicos - através da ONU, para muitos, Israel não tem direito algum. Há ainda que se afirmar que o território onde os judeus se assentaram era inóspito e se tornou um verdadeiro oásis exclusivamente pelo  esforço judeu . Há ainda o fato de que muitas áreas foram compradas legalmente por judeus. 
Percebo claramente que muitos jornalistas e governos ignoram que grupos como Hamas e Hezbollah têm ódio mortal a Israel. Tanto que em suas escolas as crianças são doutrinadas desde pequenas a terem e manterem tal ódio mortal. E mais, elas são usadas, juntamente demais civis, como escudos humanos . Assim Israel é atacado covarde e sistematicamente desde seu retorno como nação.  E se revida, como acontece agora, ai sim, faz covardia. Pelo menos algumas pessoas têm notado isso. Como um que que publicou que: "Enquanto Israel defende seu povo com suas armas, o Hamas defende suas armas com o seu povo".
  Algumas pretensas propostas de paz do lado de palestinos e simpatizantes na verdade são simplesmente estratégia para dizimar totalmente a civilização judaica. Como, por exemplo, a proposta, já de décadas, para que Israel permita em seu território  uma população palestina árabe em número muito superior à do próprio Israel. Ou seja, a influência "pacificamente" seria total do povo que odeia a nação judaica.
  Em tempo devo dizer que não concordo com todas as ações de Israel. Mas também preciso afirmar que mesmo eles tendo sido infiéis, Deus permanece fiel. E é por isso que esse povo sobreviveu a tudo e a todos, incluindo a ele mesmo em sua cegueira.
   Agora, é inevitável também pensar no cumprimento de toda profecia bíblica que tem Israel como centro dos dias finais aqui na terra.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A ARMADILHA DE TEMER O FRACASSO - BRENNAN MANNING

"Você sabe, apesar do fato de que o cristianismo fala da cruz, da redenção, e do pecado, relutamos em admitir as falhas de nossa vida. Por quê? Em parte,acredito, que é o mecanismo de defesa da natureza humana contra suas próprias insuficiências. Mas é ainda mais por causa da imagem bem-sucedida que nossa cultura exige de nós. Há alguns problemas reais em projetar a imagem perfeita.
Em primeiro lugar, simplesmente não é verdadeira - nem sempre estamos felizes, otimistas, no comando.
Em segundo, projetar a imagem irretocável nos impede de alcançar as pessoas que  sentem que não as compreenderíamos.
E, em terceiro lugar, ainda que pudéssemos levar uma vida sem conflitos, sofrimentos ou erros, seria uma existência superficial. O cristão com profundidade é a pessoa que fracassou e aprendeu a viver com seu fracasso".

terça-feira, 8 de julho de 2014

EGO - PAULO CILAS

Sou crítico dos estrelismos na igreja. Gente arrogando para si mesmas glória e honra. Pastores que cobram obediência e acabam por subjugar a todos.
Desde sempre aprendi que honra não se exige, não se reivindica, apenas se recebe e, isto, quando alguém quiser fazê-lo. Não era assim com jesus?
Entretanto, mesmo tendo essa convicção, acabo por me condenar naquilo que aprovo pois, muitas vezes contrariado em questões que me vejo correto em meus argumentos, reajo com força desnecessária. E quando a questão  é doutrinária ou eclesiástica então? Revisto-me da armadura da responsabilidade e de guardião da verdade e assim camuflo meu gênio e meu ego. Então, ouço O Senhor falar através de Brennan Manning:  "Ao dizer bem aventurados os pobres de espírito, Jesus inverte todas as ideias anteriores a respeito da grandeza humana ... praticar a pobreza de espírito nos chama a não ficarmos ofendidos nem super sensíveis à crítica. A maioria das feridas de nossa vida, o massagear interminável do último machucado feito ao nosso ego ferido, sentimentos de raiva, rancor, ressentimento e amargura vêm de nossa recusa em abraçar nossa pobreza humilhante, vêm de nossa obsessão com nossos direitos, de nossa necessidade de estima diante dos olhos dos outros. Se sigo o conselho de Jesus e tomo o último lugar, não ficarei chocado quando outros também me mandarem pera lá".
Sei que continuo com o dever de não me omitir, principalmente nas questões caras à sã doutrina e ao bom andamento da Igreja de Jesus contudo, não devo agir diferente do como Ele, O Cabeça da Igreja, agiu.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

DO LIVRO "UM ANO COM EUGENE PETERSON"

 É perverso dizer a uma pessoa que Deus é um tirano raivoso esbravejando dos céus, pronto para apanhar todo transgressor e joga-lo no lago de fogo. É perverso dizer a uma pessoa que Deus é um vovô senil, embalando uma cadeira de balanço celestial com somente uma pequena parcela de atenção destinada ao que esta se passando no mundo. É perverso dizer a uma pessoa que Deus é um gerente compulsivo em relação à eficiência e extremamente mal-humorado de um cosmos administrado com mão de ferro, obcecado em obter a mais alta produtividade possível da história e com absolutamente nenhum interesses por pessoas, a não ser por aquilo que elas podem oferecer,
     Se crermos que Deus é um tirano raivoso; se pudermos, iremos evitá-lo defensivamente. Se crermos que Deus é um vovô senil, iremos viver descuidadamente e de forma trivial, sem nenhum senso de propósito transcendente. Se crermos que Deus é um especialista em eficiência, iremos viver com raiva por sermos reduzidos a uma função e não sermos nunca apreciados como pessoas.
     É perverso contar a uma pessoa uma mentira sobre Deus porque, se viermos a crer nas coisas erradas sobre Deus, pensaremos coisas erradas sobre nós mesmos e viveremos miseravelmente ou muito mal. Contar a uma pessoa uma mentira sobre \deus distorce a realidade, perverte a vida e prejudica os processos da existência
 Enquanto estávamos em reunião, espiões se infiltraram entre nós fingindo serem                    cristãos, a fim de descobrir o quanto os verdadeiros cristãos são livres. Sua motivação velada era de reduzir-nos a seu tipo de servidão.
Gálatas 2.4

terça-feira, 1 de julho de 2014

A graça das coisas

Este post foi publicado em reflexões em  por .

alegria
Publicado por Piero Barbacovi
Elienai Cabral Jr. uma vez falou: Se você não for salvo pela graça, será por ela escandalizado.
Jesus sentava-se à mesa com qualquer um que queria estar presente, inclusive os que eram banidos das decentes casas. Compartilhando da refeição, eles recebiam consideração em vez da esperada condenação. Um perdão misericordioso em vez de um apressado veredicto de culpa. Graça admirável em vez de desgraça universal. Eis aqui uma demonstração muito prática da lei da graça – uma nova chance na vida.
Jesus afirma, com efeito, que o Reino de seu pai não é uma subdivisão para os justos nem para os que sentem possuir o segredo de Estado da salvação. O Reino não é um condomínio fechado elegante com regras esnobes a respeito de quem pode viver ali dentro. Não; ele é para um elenco mais numeroso de pessoas, mais rústico e menos exigente, que compreendem que são pecadores porque já experimentaram o efeito nauseante da lua moral. Homens e mulheres que são verdadeiramente preenchidos com a luz são aqueles que fitaram profundamente as trevas da sua existência imperfeita.
O problema é que a maioria aceita a graça na teoria, mas a nega na prática. Dobrando-se aos poderes deste mundo, a mente deformou o evangelho da graça em cativeiro religioso e distorceu a imagem de Deus à forma de velho chatonildo, sempre de cara emburrada. O amor foi reprimido e a liberdade, acorrentada.
Nossa espiritualidade começou a começar no eu, não em Deus. Nossa fissura por impressionar a Deus, nossa luta pelos méritos de estrelas douradas, nossa afobação por tentar consertar a nós ao mesmo tempo em que escondemos nossa mesquinharia e chafurdamos na culpa são repugnantes para Deus e uma negação aberta do evangelho da graça.
Toda geração cristã tenta minimizar o cegante brilhantismo do significado do evangelho, porque ele fica parecendo bom demais para ser verdade. Pensamos que salvação pertence aos decentes e piedosos, àqueles que permanecem a uma distância segura dos becos da existência, cacarejando seus julgamentos sobre aqueles que a vida maculou.
A Boa Nova significa que podemos parar de mentir a nós mesmos. O doce som da graça admirável nos salva da necessidade do auto-engano. Pois a Graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é presente. Tudo de bom é nosso não de direito, mas meramente pela liberalidade de um Deus gracioso. Embora haja muito que podemos ter feito para merecer – nosso diploma e nosso salário, nossa casa e nosso jardim, uma garrafa de boa cerveja e uma noite de sono caprichada – tudo é possível apenas porque nos foi dado tanto: a própria vida, olhos para ver e mãos para tocar, mente para formar ideias e coração para bater com amor.
Não há coisa alguma que algum de nós possa fazer para herdar o reino. Devemos simplesmente recebê-lo e aproveitá-lo como criancinhas. E criancinhas não fizeram coisa alguma. As crianças são nosso modelo porque não têm a menor pretensão ao céu. Se estão mais próximas de Deus é porque são incompetentes, não porque são inocentes.
A igreja deve estar constantemente consciente de que sua fé é fraca, seu conhecimento incompleto, sua profissão de fé hesitante, de que não há um único pecado ou falha do qual ela não seja de um modo ou outro culpada. E embora seja verdade que a igreja deva sempre se dissociar do pecado, ela não pode jamais ostentar qualquer desculpa para manter qualquer pecador à distância.
Porque meu encontro com Cristo não me transformou num anjo. Porque a justificação pela graça significa que meu relacionamento com Deus foi consertado, não que me tornei o equivalente a um paciente sedado em cima de uma mesa.

Entre o lixo e o Sagrado - Zé Luis no Genizah




- Olha este blog!
- Certeza que eles são crentes? - comentou ela, após uma quase prolongada olhada nos vídeos e textos.
- Claro que são...
- Eu não gostei... eles estão criticando os ungidos do Senhor...

E assim começou minha primeira visita a este blog. Eu mostrei a outro crente e ele me respondeu assim. Confesso que não me senti confortável diante dos questionamentos aqui postados. Estava condicionado a respeitar pessoas quando apresentavam credenciais de cunho religioso, independente de sua postura moral e ética.

Embora tenha crescido – literalmente – dentro de um templo de Umbanda, e ciente que não existe essa “vida religiosa ininterrupta”, seja o mal ou o bem(diga-se de passagem, o espiritismo não se vê como praticante do mal, muito pelo contrário), vi na vivência cristã uma possibilidade.

Quando encontrei o Mestre há quase duas décadas, vi no cristianismo a única forma de existência, onde não dependeria de templos ou cerimoniais para ser um discípulo ou adorador legítimo.

Gradativamente, aconteceu algo no meu paraíso: os templos suntuosos passaram a ser sinal de êxito espiritual (prioridade então), artimanhas neurolinguísticas de auto-ajuda e hipnose – que conheço tão bem – começaram a arrebatar multidões, e o resultado financeiramente compensador destas campanhas as tornaram cada vez mais populares, ou se preferir, “de deus”.

Tentei conversar com alguns líderes, alertá-los sobre a semelhança, informando que aquilo não era o Evangelho que me converteu: aquilo era o lixo no qual havia me livrado: era isolado, olhado com desdém, e posteriormente, como uma voz a ser calada e ridicularizada.

Seria incorreto dizer que estava só nesta batalha, mas gradativamente, os ventos mudavam até eu estar cercado de líderes ungidos, inquestionáveis, intocáveis em seus argumentos, por mais esdrúxulos que fossem (e ainda são).

Passeando pela net, encontrei outros loucos reunidos num lugar só, cercado de loucos por todos os lados. Gente que compartilhava a tristeza nas gargalhadas de ver o ridículo das situações em que estavam inseridos, sem poder perguntar: “Que raio isso significa? Deus está nesse negócio?”

“Não toqueis nos meus úngidos...” foi revelado: ESTÁ FORA DO CONTEXTO nas argumentações de certos pilantras que dão “carteirada” com suas credenciais eclesiásticas.

Confesso; me senti em casa. Genizah é o local onde a letra sagrada é escondida entre o lixo do templo em dias de destruição. Bom: a minha parte, na maioria das vezes, é produzir lixo (talvez você já tenha se divertido com ele). Sou bom nisso, o transcrevo de vários lugares onde vivo.



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Um universitário confuso encontra um cristão ex-ateu - Kelson Mota no blog resistência reformada





Após uma aula sobre entropia e probabilidade, nos corredores de uma querida universidade gaúcha, um aluno me aborda:

- Professor, posso falar um pouco contigo?
- Diga! Qual o problema?
- Sua aula sobre entropia e probabilidade. Me deixou confuso.
- Em que sentido?
- Dá a entender que há um sentido por trás de todas as coisas.
- E não há?
- Eu acho que a vida não tem sentido algum. Um completo absurdo.
- Entendo... Por que estás fazendo uma faculdade de engenharia?
- Bem, preciso ter uma direção na vida?
- Por quê? Em sua visão, a vida não tem sentido, logo por que perder tempo em algo que é absurdo?
- Já pensei nisso. Mas sua aula dá a impressão que há um sentido. Há?
- Se não há sentido na vida, não há sentido em sua pergunta e nem em nossa conversa. A não ser que desconfies que sua visão esteja errada. Estou certo?
- Talvez... Como posso saber? Tudo é tão além de qualquer significado real...
- Existe algo fundamental que sustenta toda a realidade e empresta significado real a todas as coisas e dá-lhes um sentido e propósito. Negar este fato é ficar na beira do abismo do ser, olhando o vazio.
- E o que é isso?
- Não desconfias?
- O senhor está falando de Deus?
- Precisamente dEle.
- Não sei se acredito nisso.
- Se não há Deus o que resta ao homem?
- Ora, todas as coisas... eu acho...
- Cite uma.
- Bem, a vida. Que tal?
- Se não há Deus, a vida é, na melhor das hipóteses, apenas um acidente entre dois esquecimentos. Nascemos por mero acaso biológico e morremos no decurso temporal. O que veio antes e o que será depois não tem importância ou sentido, pois a vida ter-se-á sumido. Nada veio antes e nada ficará depois. Logo a vida é uma ilusão e os desejos do homem um absurdo. Cite outra.
- Bem, o homem pode sonhar com sua evolução pessoal.
- Como, se ele morre e depois nada resta? Qualquer legado que deixar ou sonhar cedo ou tarde se apagará.  O sonho é, portanto mais ilusório que a vida, caso não consideremos a existência de um Criador. O que achas?
- Eu não sei... Começo a achar que deve ter algum sentido nessa vida, mas não sei se Deus é a resposta.
- Entendo... Veja, se não há um Deus Criador, pessoal e amoroso, então o universo sempre existiu de uma forma ou de outra por si mesmo, autônomo. Sem Deus, sobra apenas a matéria incriada, sem sentido, sem moral, sem justiça. Interações caóticas de partículas que, em um momento de fenomenal absurdo, geraram seres que imaginam pensar viver, mas são apenas reflexos de matéria inanimada. Um simulacro de movimento, um espasmo de forças materiais. Está acompanhando?
- Sim...
- Pois bem, a organização desses seres é apenas acidental, pois se só há o universo, o conceito de bem, mal, moral, justiça, altruísmo, bondade são apenas ilusões. Os sonhos humanos são feitos de material ainda mais frágil, pois que são transitórios. Não resta nada ao homem além do absurdo da vida em um universo não vital, impessoal e indiferente. Não importa o que ele intentar fazer, sonhar ou construir, ao fim e ao cabo será sem sentido, sem pertinência, sem transcendência. O que nos traz de volta a você.
- O que tenho a ver com isso?
- Se Deus não existe não há base para sua desconfiança que haja algum sentido nessa vida. Vá viver e morrer sua existência miserável em qualquer lugar ou situação que escolher. Não fará diferença. Agora, se Deus existe, há um sentido para essa vida e para todas as nossas escolhas e decisões. E a forma de viver e morrer faz toda a diferença. Entendes?
- Então há um sentido?
- A questão que sobra não é se a vida tem sentido, mas se há ou não um Deus sobre todos nós. A primeira decorre da segunda. A idéia de um sentido existencial só faz sentido em relação a uma realidade superior.
- Mas, e se não houver um criador?
- Então meu caro, se nossa esperança se resume apenas a esta vida, a humanidade tem uma existência mais infeliz e miserável que o menor dos vermes de nosso planeta, que nada cogita dessas coisas e vive apenas a procura da próximo oportunidade de forrar o estômago. Não gera consolo ou sentido a vida sem a existência de um Criador.

***

            Semana seguinte, em meu gabinete na UFRGS, alguém bate a porta e a entreabre.
- Professor, o senhor tem um tempinho para mim? – o mesmo aluno do corredor.
- Pode entrar. Alguma dúvida da aula?
- Não, não é isso. Estou gostando de uma garota...
- Aãhh? E o que tenho a ver com isso? – Pergunto cuidadosamente, como que pisando em ovos.
- É que ela é como eu, não acredita em um sentido para a vida.
- Volto a perguntar: o que isso tem a ver comigo?
- Bem, tenho medo que ela se mate... Ela está meio que numa fase suicida.
- Entendo... E por que te preocupas com isso? Deixe que se mate – e volto meu olhar para o papel em que rabiscava algo.
- Professor! Fala sério! – e sua expressão alarmada não provoca nenhuma alteração em minha face tranquila.
- Estou falando e te levando muito a sério. Considero seriamente quando dizes que não acreditas em um sentido para a vida. Se a vida não tem sentido, por que te preocupas com a vida dessa moça? A vida não tem sentido, é o que você crê. Logo, a vida dela também não tem sentido. Sua preocupação não faz sentido. Deixe que morra. Aliás, nessa sua cosmovisão, nem mesmo minha afirmação faz qualquer sentido.
- Mas a vida tem que ter algum sentido!! Qualquer um!!
            À sua expressão de desalento respondo com um olhar silencioso. Após uma pausa, para que ele tivesse consciência de sua afirmação, respondo:
- Muito bem, então estás desconfiado que a vida não é apenas um mero absurdo. Pergunto, o que sentes por ela tem sentido e significado para ti?
- Sim... – responde acabrunhado, olhando para o chão.
- É real? Ou apenas ilusório?
- É real.
- Pois bem, escute atentamente o que vou dizer: a vida tem sentido, nossas palavras têm significado, nossas escolhas são reais e buscamos e lutamos por realização verdadeira. Por quê? Porque somos reflexos dAquele que nos criou. NEle encontramos sentido, significado e realização. Sem Ele, o homem se encontra só, assustado, na escuridão de seu próprio coração. O que sentes por essa garota tem significado especial, porque o Senhor Deus colocou em teu coração a capacidade de amar, de se importar com outro alguém. Entendes?
- Acho que sim. Mas o que posso fazer para convencê-la a não se matar?
- Você? Nada! Um cego não pode guiar outro cego. Primeiro, deves estar seguro do sentido da vida para ti. Não podes convencê-la disso, se você mesmo não entende. Fazê-lo, seria hipocrisia ou mesmo loucura.
- Mas, alguma coisa tenho de fazer por ela, até que eu possa compreender. O senhor não tem alguma sugestão?
- Ela gosta de ler?
- Muito.
- Então posso sugerir um ou dois livros que talvez façam alguma diferença.
- Acho que não precisa. Eu já dei um de presente para ela, na semana passada.
- Mesmo? Que bom. Qual livro deste.
- “A peste”, de Camus – e abre um orgulhoso sorriso.
- Por que não deste logo um revolver para ela se matar? Você tá louco?!
- Como assim, professor? – e todo sorriso se transforma em uma expressão assustada.
- Como “como assim”? Se a garota está em um estado suicida, como pôde dar para ela ler um clássico niilista? É pedir para se matar. Só faltou a presenteares com Nietzsche e um pacote de cianureto.
- Mas o livro fala da falta de sentido da vida...
- Que é precisamente o motivo dela querer se matar. Você não entende o que lê?
- Nem pensei nisso... o livro é tão viajante...

***

Duas semanas depois, em meu gabinete, volto a receber a visita já familiar do meu aluno confuso favorito, que ao entrar na sala dispara a falar.
- Professor, ela adorou o livro que o senhor sugeriu e está começando a ler o segundo. Eu já li os dois e estou cheio de dúvidas. Qual é exatamente a natureza do grande abismo? O que era o lagarto no pescoço do homem? Como o cristianismo pode ser diferenciado de um mito? Como...
- Calma, está na hora do lanche. Vamos ao café do Antonio e lá poderemos conversar com tranquilidade.
E devagar, compartilhando um suco e um café, converso a respeito dos livros de C.S. Lewis, da vida do Filho de Deus e seu sacrifício, de minhas próprias inquietações e de minha vida anterior no ateísmo. Respondo suas perguntas e faço outras tantas. Ele ainda não está convencido da veracidade do cristianismo, mas já considera a existência de um Criador como algo digno de sua total atenção.
Despedimos-nos com um caloroso aperto de mão. Em meu coração suspiro uma breve oração a seu favor, por iluminação e entendimento.
Meses depois o reencontrei nos corredores do Instituto de Química, estava apressado. Perguntei-lhe sobre a moça, alvo de seus afetos.
- Ela saiu da fase depressiva e suicida. Agora está em outra. Encontrou um super grupo cristão, bem básico, e está lendo Thomás de Aquino.
- Sério? Que grupo é esse? – Pergunto desconfiado, pois nunca soube de um grupo básico que lesse Thomás de Aquino.
- É uma turma modernosa e acolhedora chamada Opus Dei.
- Você sabe o que é a Opus Dei?
- Sei não, acho que é um grupo que gosta de comunhão pelo tanto que a chamam para reuniões a portas fechadas. Só entra quem é convidado. Tô pensando em me convidar. O que o senhor acha?
- Ai, ai, ai...
E começa tudo novamente...

Uma esquerda religiosa e sem esperança - Filipe Samuel Nunes em Gospelprime

As pilhagens e o gosto pela violência que atravessa os Estados Unidos têm surpreendido o mundo. Alguns argumentarão que o problema racial é...