quinta-feira, 11 de julho de 2013

ESPECULATIVO E FLUTUANTE - PAULO CILAS

             
             

Essa definição é usual no mercado financeiro. É aplicada para definir o dinheiro de vários investidores que visam lucro alto, rápido e de preferência sem riscos. Tais investidores, chamados de “mercado”, não têm muita preocupação com países, estados, municípios, vilas, lares, famílias. Ou seja, quando ele pega o dito capital e leva para outro lugar onde tenha bons resultados (OU JAMAIS LEVA  ONDE HÁ VERDADEIRA CARÊNCIA) não pensa na falência, no desemprego e miséria que tal gesto provoca.
Temos dois exemplos claros: Os efeitos do Tsunami no Japão e os da bolha imobiliária estourada nos EUA. Famílias perdiam tudo, no primeiro caso pela destruição natural, e no segundo, pela quebradeira econômica generalizada.
A primeira atitude dos dois governos envolvidos foi injetar dinheiro nos bancos para não afugentar “o mercado”. Vejam bem! A primeira  preocupação não é atender os necessitados e, sim, evitar que o capital vá para outros lugares saciar a sede dos que já tem muito. E o mais curioso é que tal medida é sempre tida como acertada, pois assim, os países não ficam à míngua e expostos a um estrago maior.
Este é o mercado que parece ganhar vida (dele é dito que entende sinais, está calmo ou nervoso, etc.). Este é o mercado que é formado de gente. E gente que só quer ganhar! Nesta gente não há principio de solidariedade, de partilha e de sacrificio.
Triste, o mais triste ainda é que a lógica perversa do mercado está totalmente instalada na igreja. Cada vez mais há uma massa especulativa e flutuante que se desloca de um lugar para o outro em busca dos seus “lucros”. Neste caso, travestidos de bênçãos sejam elas materiais, físicas, emocionais, afetivas entre outras.
Tal massa não quer chorar com os que choram, sacrificar tempo, dar de si mesmo sem esperar receber em troca, entregar dinheiro (dizimar ou ofertar) sem esperar ser recompensada. Não há partilha e sim investimento!
E esta massa não fica do mesmo tamanho sempre. Ela é engrossada facilmente através de apelos convidativos. E assim, muitos se “convertem” ao espírito do ganho fácil, rápido e sem riscos. Ao se mover essa massa gera estragos, frustrações e ainda mais enganos. E sempre haverá “líderes” e instituições prontas a alimentar seus apetites insaciáveis. E isto também é tido como a coisa mais acertada a fazer.
Jamais firme na Rocha, mas, sempre FLUTUANTE e ESPECULATIVA!






A ÚLTIMA IMPRESSÃO É A QUE FICA - CARLOS MOREIRA



Na sociedade da imagem, o que importa é causar impacto logo na partida, pois o senso comum afirma que “a primeira impressão é a que fica”. Mesmo que tudo seja uma farsa, é melhor parecer sem ser do que ser e não aparecer.

Esse também é um tempo de busca por resultados: acionistas esperam resultados, clientes desejam resultados, o mercado projeta resultados. As pessoas não pensam, apenas executam. Ninguém se pergunta: “por que isso está sendo feito?”. Ao contrário, afirmam: “tem que ser feito, está na programação!”.

Essa dinâmica produziu um fenômeno ligado à fé: o evangelho burocrático. Ele transformou a igreja numa fábrica e os discípulos em trabalhadores. No evangelho burocrático a mudança da vida não é algo imprescindível, pois é possível viver apenas uma projeção. O que se requer é tão somente o engajamento do indivíduo na linha de produção da igreja-fábrica, de tal forma que ele siga as rotinas da religião, e isso sem questionar nada. É o “fordismo” cristão!

Esse “trabalhador”, então, passa a se envolver em campanhas, obras sociais, ministérios para-eclesiásticos e na evangelização, todas tarefas que movem a “engrenagem”. A grande maioria, todavia, produz ações inócuas, pois as realizam sem as motivações corretas para fazê-las. É que mudar a agenda não implica em mudar a consciência! De que adianta cumprir a grade da programação e, fora dela, a vida continuar seguindo insólita?   

Essa neurose obsessiva em realizar se faz acompanhar por aquilo que chamo de “síndrome do camaleão”. Trata-se de uma metamorfose epidérmica, calcada na imagem. As mudanças são condicionadas, estão associadas a contextos, ambientes, etc. É a fé teatralizada, que se adéqua as demandas sociais, que “posa para a foto”, porém, fora dessa ambiência, a vida agoniza em meio a desencontros pessoais, desarranjos familiares e desvios profissionais. 

Ora, a proposta do Evangelho tem a ver com a ressignificação da vida, não com a realização de um trabalho! Deus não está atrás de trabalhadores, mas de adoradores. E adoração não é algo associado a nenhuma arquetipia estética, ou a geografias do sagrado – “nem neste monte nem em Jerusalém” – mas ao que acontece “em espírito e em verdade”, no chão da Terra, em qualquer lugar e em todo tempo, pois o altar é o coração e o culto é a vida! Além disso, tem que ser expressa em absoluta verdade, pois toda performance que se constitui estelionato do ser é abominação a Deus.   

Alguém já afirmou que o caminho de todo discípulo é uma maratona, não uma corrida de cem metros. Mais importante do que começar bem, é terminar bem. Muitos começam bem, mas terminam mal! Talvez por isso o sábio do Eclesiastes afirme: “o fim das coisas é melhor do que o seu início...”. Ec. 7:8. Nas palavras de Paulo, seria como dizer: “combati o bom combate, completei a carreira e guardei a fé”. Assim, mais importante do que contabilizar “o que você fez”, é saber “por que você fez”.

“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher...”. Cora Coralina. Estou certo de que, ao final da jornada, quando o Senhor me chamar, tudo o que me tornei será registrado em uma “lousa de bronze”. Nela constará aquilo que, em Deus, eu conquistei, o que o Espírito produziu em mim. Essa será a minha glória, representará o mais perto que eu consegui chegar da estatura de Jesus, o meu Senhor.

E assim, olhando desta perspectiva e pensando na eternidade como a fronteira mais avançada, a última impressão é a que fica, e não a primeira, pois o mais relevante na soma das ambiguidades da vida é quem você se tornou e não o que você fez.   




terça-feira, 2 de julho de 2013

EM QUAL MONTE ESTAMOS? - PAULO CILAS

Hebreus 12:18-24 descreve o contraste entre a vida religiosa antes e depois de Jesus. Entender em qual monte estamos é fundamental para a qualidade da  mensagem que anunciamos.
O sinai se revelava  como contra ponto entre a santidade de Deus e a pecaminosidade  da terra. Sim! Não era só homem que não podia tocar no monte "no momento de Deus", mas, até um pobre animal seria morto se assim fizesse. A terra e seus habitantes não suportam Deus e Sua Presença Gloriosa.
Então, Jesus instituiu "Sião". Não o geográfico e, sim, o Espiritual. Alias, é bom entendermos que O Senhor deu a lei e em Jesus a cumpriu. Determinou o sacrifício e em Jesus fez o último e definitivo. Determinou O Santo dos Santos com seu Véu Divisor e em Jesus o rasgou de alto a baixo. Permitiu que O Templo fosse destruído, mas, em Jesus O ergueu eternamente.
Chegar `a Sião, agora, quer dizer que alcançamos a plenitude da Graça e do Amor divino.
Não há como pregar  ameaças e "nem" lançar pedras  contra homens. Não há mais trovões e raios ameaçadores. E, a não ser nas mentes turbadas, doentes, orgulhosas e influenciáveis, já não há mais visões aterradoras.
Reverência,  piedade e agradavelmente dão o tom de como devemos servir a Deus vs.28.
Quanto ao mundo e ao religiosos em geral a advertência vem do próprio Céu. Jesus não veio condenar os que não O aceitaram. Ele veio salvar os que estão( ou estarão) irremediavelmente condenados juntamente com todas as coisas que não podem permanecer.
"Essa não é, de modo algum, a experiência de vocês. Vocês chegaram ao Monte Sião, a cidade onde O Deus vivo reside... É a cidade onde deus é o juiz e na qual seus julgamentos nos tornam justos.
Vocês chegaram a Jesus, que apresentou uma nova aliança, um nova alvará concedido por Deus. Ele é o Mediador desta aliança. A morte de Jesus não foi como a como a de Abel, um assassinato que clama por vingança. Em vez disso, se tornou uma proclamação da Graça.
Portanto, não tapemos ouvidos para essas palavras tão agradáveis. Se os que ignoram as advertências terrenas não escaparam, o que nos acontecerá se virarmos as costas para advertências do Céu? A voz de Deus, naquela ocasião, sacudiu a terra até  os fundamentos. Desta vez, Ele foi bem claro, vai sacudir os céus também: "Um último abalo, muito violento e  devastador, de cima para baixo". Uma limpeza completa, elimina todo lixo religioso e histórico e traz `a tona a essência inabalável e limpa, sem mistura alguma." Bíblia  A Mensagem.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A DISTÂNCIA ENTRE OS PÚLPITOS E A RUA - RICARDO GONDIM


 Em plena ebulição de manifestantes lotando centenas de cidades pelo Brasil a fora, uma breve visita aos programas evangélicos revela não apenas a desconexão das principais igrejas-empresas, como a alienação que elas submetem seus fieis. Todas mantêm o velho e sovado discurso do milagre, da bênção da prosperidade e da salvação para depois da morte. Resta uma pergunta: os comunicadores evangélicos são bem-sucedidos em suas empreitadas? A resposta cabe tanto um sim como um não. Sim, caso se considere o espetacular crescimento numérico dos crentes e fortuna que amealham. Não, se levarmos em conta o recrudescimento de preconceitos e a ostensiva rejeição que evangélicos sofrem entre os formadores de opinião.
Dificilmente qualquer um dos famosos televangelistas se aventurariam nas ruas durante os protestos. Nenhum deles marcharia ao lado daqueles primeiros manifestantes. Chego a pensar no pior. Se rasgaram bandeiras de partidos, imagine o que fariam aos mais audazes televangelistas – os que vivem de dedo em riste. Se já aconteceram relatos de discriminação contra pastores ao preencherem cadastro de crediário ou quando alugam casas e fazem ocheck in em hotel, numa passeata em que xingam tudo e todos, os pastores seriam linchados. Se políticos são considerados – numa generalização irresponsável – corruptos, o senso comum trata pastores como falastrões, sempre ávidos por dinheiro.
Eugene Peterson narra sua aflição numa conversa com um passageiro que viajava ao seu lado pela Ásia. Em determinado momento, o homem indagou a profissão de Peterson. Sou pastor, respondeu. A reação do homem foi constrangedora: Pastor, responda-me, por favor: por que, quando me vejo perto de um monge budista, tenho a sensação de estar ao lado de um santo homem de Deus, mas junto de um pastor fico com a impressão de que converso com um  homem de negócios?
Líderes evangélicos precisam acordar: o tempo reclama por mais do que mera retórica. Na inquietação popular, evidenciou-se a penúria dos sermões – o conteúdo dos púlpitos não vai além de chavões surrados, reciclados e esvaziados por excessivo uso. A grande maioria dos pastores só tem um punhado de versículos – não passam de uma centena – pinçados dos contextos de guerra ou da percepção do Deus ainda tribal em Israel. Pastores repetem ad nauseum vitória nas batalhas e milagres excepcionais, mas não conseguem articular agenda de mudança social. O meio gospel trata como excepcionais evangelistas que decoram esses poucos versículos e conseguem citá-los, como rajada de metralhadora, no meio de um sermão. A retórica funciona bem entre os que se acostumaram à subcultura gospel, mas soa estranha fora de seus muros.
O tempo exige credibilidade. Cansado de corrupção, de conto-do-vigário, o povo precisa de um aceno mínimo dos pastores de que eles não participam da mesma cultura dos caudilhos, dos coronéis, das oligarquias e das elites que se favoreceram da miséria. Caso contrário, permanecerá no país a ideia de que eles não passam de espertalhões, prontos a surfar na onda que prevelacer. O povo os procurará apenas para conseguir bênção, mas jamais acreditará que têm proposta de como organizar a vida. Assim pastores se condenam à categoria de feiticeiros, hábeis na técnica de acessar o sobrenatural, fazendo com que a magia substitua o engajamento político e a religião continue vassala dos interesses de quem precisa de alienados.
Agora, mais do que nunca, tornou-se imperativo sintonizar sermão e vida. De nada serve lidar com conceitos que fazem todo sentido em torres de marfim. Como o evangelho não doura a pílula existencial, os pastores não podem ter a pretensão de que, em tese, os fieis, literalmente, andam sobre as águas, seguram serpentes sem serem picados e bebem veneno. Os cristãos também sofrem em ônibus lotados, também esperam semanas por vaga em hospital público e também sobrevivem com subsalários.
Tornou-se inadiável o diálogo entre a igreja e os diferentes setores que reivindicam mudança radical. Ficou claro: o problema da corrupção, pobreza crônica e injustiça social extrapola pessoas e partidos políticos. Qualquer partido, uma vez no poder, ficará exposto a uma estrutura que exige que ministros ou presidentes de estatais – da Petrobrás aos Correios – sejam ocupados, não por técnicos, mas por indivíduos que defendem os interesses particulares de caciques partidários.
O dilema shakespeareano em que o Brasil se meteu é: mudança ou revolução, eis a questão. Os neopentecostais brasileiros podem até pedir mudança, mas parecem indispostos a “vender tudo e dar aos pobres”. Envolver-se numa revolução radical de inclusão, ascensão social e justiça econômica custa caro – uma cruz. Em Para além do bem e do mal, Nietzsche disse que quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde. Fica a sensação de não haver grupo mais preocupado nesse adestramento do que os neopentecostais; e mesmo que não cogitem, eles estarão entre os que serão mordidos.
O Brasil ferveu e os pastores pediram aos crentes que orassem. Pobres líderes. Esqueceram da resposta de JHVH a Moisés diante do Mar Vermelho: Por que orar nesta hora? Manda o povo que marche. Infelizmente, poucos pastores têm coragem de serem os primeiros a colocar o pé nas águas tumultuadas de um oceano de incertezas. Mais uma vez grandes segmentos da comunidade evangélica perderam o kairós da história e de Deus. Repito: infelizmente.
Soli Deo Gloria

quinta-feira, 13 de junho de 2013

DO LADO DOS SINCEROS E HUMILDES - PAULO CILAS

            
          Artigo do Ariovaldo Ramos postado aqui mostra dois discípulos raivosos querendo destruir pessoas como vingança por elas não terem deixado Jesus descansar em sua cidade. Claro que Jesus os repreendeu, pois tal postura seria completamente oposta à sua obra de reconciliação que estava sendo estabelecida.
        Hoje percebemos uma tendência para aplaudir aos que, dos púlpitos e nas TVs, com veemência falam de poder, domínio, moralismos. Quase chegam a espumar quando apontam o pecado alheio.                                                                                             
         Ao mesmo tempo, aqueles que se portam com brandura ousando
 expor suas fragilidades e, assim, pregam O Evangelho da Graça como iguais a todos, não sendo juízes de ninguém, são chamados de coniventes, amigos do mundo, fracos, não representantes de Deus (curiosamente Jesus foi acusado da mesma coisa). Tais preferências acontecem no seio da Igreja. Os raivosos e brigadores cada vez mais enaltecidos e os demais ignorados ou desdenhados. E quando expressam seus medos, suas dúvidas, suas sinceras indagações, e até mesmo seus pecados, são atacados como desqualificados.
          Alguns desses, como o Pr. Ricardo Gondim, pagam o preço por dar luz às suas reflexões que fogem do lugar comum “evangélico”. É verdade que pensadores às vezes nos assustam e em outras vezes discordamos frontalmente deles. Mas, ora, também não discordamos de Jó quando diz que o aborto é melhor que ele? Ou de Jonas, primeiro desobediente e, depois, frustrado com a misericórdia de Deus para com os ninivitas? Ou, ainda, de Elias que deprimido se enfurna na caverna mostrando fraqueza ante a ameaça de Jezabel? E o que dizer de Paulo que afirma categoricamente ser com a mente servo de Deus, mas, com o corpo servo do pecado?
        Eis algo que tenho crido: A nossa visão é a do Cordeiro, ou seja, a nossa mensagem é do Jesus crucificado amando o mundo e querendo reconciliar o homem com Deus. A nossa visão não é ainda do Leão, do Juiz. É a Cruz não a espada, é o dar não o receber, é pregar a graça não a ameaça! Até porque, não temos capacitação para juízos, moralismos entre outras coisas, pois, agindo assim, fatalmente sempre coamos mosquitos e engolimos camelos.
         Precisamos estar do lado do homem envergonhado que ora no templo se confessando pecador, da mulher "pagã" siro-fenícia que declara que até os cães comem das migalhas que caem da mesa, do centurião que acredita na autoridade de Jesus para curar, do outro centurião que, no momento do escárnio maior do Senhor como malfeitor na cruz, declara que Ele, Jesus, “verdadeiramente era o Filho de Deus”! Em sua sinceridade ou humildade estiveram do lado certo. E nós precisamos estar do lado delas pois assim  nos esvaziamos de nossas soberbas e vaidades tornando-nos reflexos da misericórdia de Jesus.
         Mesmo em meio aos brados raivosos que aparentemente parecem certos e por motivos certos, não devemos consumir ninguém, seja com o fogo, como propuseram João e Tiago, seja com o nosso afastamento “das pessoas mundanas”.
Brilhemos nas trevas!  Ainda há tempo de apontar O Cordeiro, que morreu pelos pecadores. Nós entre eles.




quarta-feira, 8 de maio de 2013

ÉTICA E ESPERANÇA NA IGREJA NO BRASIL - ARIOVALDO RAMOS






" Vós não sabeis de que espírito sois. " disse Jesus em Lc 9.55, aos 

irmãos Tiago e João, que, quando perceberam que uma aldeia de Samaria se recusava a permitir a passagem de Jesus, perguntaram-lhe se gostaria que pedissem ao Pai que mandasse fogo do céu para destruir aquela vila. Jesus explicou que o filho do homem não veio para destruir o alma dos homens, mas para salvá-los. 


Jesus estava ensinando ética para os seus discípulos. O que eles sugeriram não combinava com caráter da obra, da pessoa e da natureza de Cristo. Ética é isso, a coerência entre meio e o fim. Sei que há muitas outras definições possíveis, mas, ficarei com esta, que aponta para a finalidade e a natureza como norte. O meio pode ser um pensamento, uma motivação, uma atitude, um ato, etc.. 


Tiago e João faltaram com a ética porque não entenderam quem eram, portanto, não sabiam como se portar. Porque quem não sabe quem é e para o que existe, não sabe o que pensar, que motivação deve ter ou aceitar, que atitude deve acalentar, que ação deve tomar. Jesus, ao contrário desses discípulos, sabia quem era, se chamou de o filho do homem, sabia que era o grande representante da humanidade, o modelo de gente e o único caminho para a nossa salvação. Jesus sabia, assim, exatamente, como deveria se portar em todos os sentidos.


Para falar sobre a relação entre a igreja e a ética, temos de entender o que é a igreja. A igreja é a comunhão dos seres humanos que receberam a mesma revelação que Pedro e que, portanto, adora a Jesus. A revelação que Pedro recebeu foi de que Cristo é o filho do Deus vivo, portanto, é Deus, e Deus a gente adora. Adorar a Cristo é proclamá-lo, ele, a encarnação da virtude de Deus e imitar Jesus de Nazaré. Porque o João disse que quem diz estar nele deve andar como ele andou, e Paulo disse, de si mesmo, que ele era um imitador de Cristo, e que nós deveríamos seguir seu exemplo, disse, também, que vivia para anunciá-lo. 


Assim, a igreja é a comunhão de pessoas que, individual e comunitariamente, no poder do Espírito, imitam e anunciam a Jesus de Nazaré, o Cristo, no seu dia-a-dia, em tudo o que fazem. O Cristo que a gente imita é o Cristo que habitou entre nós. Porque Paulo disse que a gente devia contemplar a glória do senhor e não o senhor da glória; e a glória do senhor é Jesus de  Nazaré, o Cristo, fazendo da vontade e comunhão com Deus a sua comida e bebida, e andando por todos os lugares fazendo o bem para todas as pessoas. 


Também, temos de nos lembrar de que, quando João estava nas regiões celestes chorando porque não havia quem pudesse tomar o livro da mão daquele que estava sentado no trono, um ancião apontou para ele o leão da tribo de Judá, porém, tudo o que ele conseguiu ver foi o Cordeiro que foi morto. O céu pode falar do leão, porém, a gente só vê o Cordeiro, se temos de imitar alguém, só podemos fazer isso em relação a alguém que a gente pode observar, e a gente vê o Cordeiro, portanto, só dá para imitar o Cordeiro. 


A espiritualidade cristã não é a do leão mas, a do Cordeiro. Isso deveria influenciar a nossa liturgia, de modo que tanto as nossas músicas como os demais movimentos litúrgicos deveriam nos mostrar o Cordeiro, que foi morto e que ressuscitou ao terceiro dia, em sua devoção ao Pai e serviço aos homens. 


A igreja também é um homem coletivo, Paulo disse que Jesus Cristo criou, nele mesmo, um Novo Homem, esse novo homem é fruto da reconciliação entre judeus e gentios. Recordemos que, para a mentalidade judaica, o mundo estava dividido em dois grupos: judeus e gentios. O que os separava era a compreensão e o relacionamento com Deus, os judeus sabiam de tudo sobre Deus e com ele tinham comunhão, os gentios, por sua vez, não tinham nada, estavam sem Deus no mundo e, portanto, sem senso de finalidade e sem esperança. Jesus Cristo ao apresentar-se a ambos como a única possibilidade de realmente se ter acesso às promessas de Deus, colocou-os numa mesma base, acabou a briga, tanto um quanto o outro precisam de Cristo para ter Deus. 


A medida que judeus e gentios vão admitindo isso, e se rendendo a Jesus, passam a formar a nova humanidade, porém, com uma diferença significativa em relação a anterior, são habitação do mesmo Espírito e passam a se amar tanto que essa unidade, o homem coletivo, fruto desse Espírito, aparece. E a imagem e semelhança da Trindade é plenamente manifestada. 


Então, viver a Igreja é fomentar o surgimento dessa comunidade que manifesta essa unidade. Isso, também, deveria dar o tom de nossa liturgia; vocês já se deram conta de quantas músicas nós cantamos enfatizando a primeira pessoa do singular, eu, eu, eu... onde está o nós?, quando vamos aprender a nos ver a partir da comunidade? 


E tem mais, a igreja também está identificada com o Reino de Deus. Em Daniel o Reino é um domínio exercido por um povo que nunca o perderá; em Apocalipse é um povo de sacerdotes que reinará sobre a terra; em João Batista o Reino exige que as pessoas se arrependam, o que vai desembocar na prática da solidariedade; na fala de Jesus, que confirma João, o Reino é um sistema onde o poder é o serviço; é um lugar que só pode ser visto do lado de dentro, pois, tanto para ver como para entrar a pessoa tem de nascer de novo, logo, só vê se entrar, então, quem viu, viu do lado de dentro; e só pode participar dele quem rompeu com tudo para viver apenas por ele; é um lugar onde só a vontade de Deus é feita; é uma realidade a ser vivida e a ser aguardada, assim como, uma mensagem a ser anunciada prioritariamente aos pobres. 


Na fala de Paulo, o Reino é um estado de alegria, paz e justiça, onde o trabalhador é o primeiro a desfrutar de seu trabalho; onde quem colheu de mais não tem sobrando e quem colheu de menos não passa necessidade, e todos trabalham para acudir ao necessitado. 


A Igreja é o povo do Reino, que o vive e o sinaliza. Ser ético, então, para a Igreja, é ser coerente na história, em meio a sociedade, com a complexidade de sua natureza e finalidade. Em que músicas, leituras e orações, mesmo, nosso compromisso como povo do reino aparece? A ética começa na liturgia, na forma como nós apresentamos o nosso culto a Deus. 


A gente é ético no contexto onde a gente vive. O nosso contexto é o Brasil, país de contrastes perversos: uma das maiores economias e um dos piores índices de distribuição dessa riqueza; uma tecnologia desenvolvida ao lado dos piores índices de alfabetização e de aquisição de cultura; uma das arquiteturas mais reconhecidas e respeitadas ao lado de um dos maiores de índices de déficit habitacional e de submoradias; um dos maiores territórios do planeta, com terras das mais férteis ao lado dos piores índices de distribuição de terra; uma das mais eficazes agriculturas ao lado da fome e da subnutrição; uma medicina das mais desenvolvidas ao lado de índices estarrecedores de mortalidade infantil. 


Temos uma das legislações mais avançadas na área dos direitos humanos ao lado de graves índices de violência contra a mulher, abuso de crianças e adolescentes e prática de tortura; um dos códigos penais de maior senso humanitário ao lado de um dos sistemas carcerários mais aviltantes e degradados; uma das democracias raciais mais celebradas ao lado de um racismo pérfido, pois, sutil, não confessado e disfarçado de problema sócio-econômico, onde o negro, cantado em prosa e verso, não consegue ser cidadão e está condenado à pobreza e a ignorância.  


Temos uma das constituições mais avançadas ao lado dos piores e mais corruptos políticos encontrados numa nação classificada entre as modernas; um dos sistemas de votação mais avançados ao lado de um processo eleitoral marcado pela preponderância do poder econômico e por vícios que perpetuam no poder uma casta de caudilhos, sistema onde se tem a obrigação do voto mas não se tem o direito de veto, onde o eleito pelo povo transforma o mandato em patrimônio pessoal e fonte de riqueza; uma cultura marcada pela criatividade ao lado de um mercado cultural colonizado e emprobecedor; um dos povos que mais confessam a existência de Deus ao lado de uma vergonhosa manipulação religiosa e de arraigadas práticas de superstição, que o tornam prisioneiro de forças malignas.


O que significa agir de forma coerente à nossa natureza e finalidade num contexto desse? 


A face mais visível e, aparentemente, a que mais cresce da igreja brasileira ao invés de denunciar a injustiça social e propor e viver uma economia solidária, passou a pregar uma teologia que sustenta a desigualdade ao afirmar que a riqueza deveria ser o alvo do crente, e que o caminho é a fé atestada pelo nível de contribuição e pela capacidade de arbitrar, por decreto, sobre o que Deus deve fazer. 


Ao invés de denunciar a miséria e a dívida do estado para com os excluídos passou a denunciar a provável pequena fé dos desgraçados; ao invés de socorrer aos enfermos, enquanto denunciava o descaso, começou a apregoar uma cura instantânea para aqueles que, com um certo tipo de fé, freqüentarem o ministério certo. 


Ao invés de combater o racismo passou a estigmatizar como maligna tudo o que se relaciona com a cultura negra, como se o demônio fosse negro e, portanto, tudo o que é negro fosse demônio.


Ao invés de denunciar a corrupção passou a fazer negociatas com sórdidos representantes da camarilha que mantém o país no subdesenvolvimento, assim como, a participar, sem restrições, do jogo político, cassando o direito político de suas ovelhas, pelo constrangimento, para que votem nos candidatos escolhidos pelos líderes; líderes que ao invés de praticarem o serviço para que se forme uma comunidade, tornaram-se caudilhos que se locupletam às custas da boa fé, de gente que apenas queria Deus. 


Líderes e que se escondem em títulos pomposos enquanto transformam a igreja numa cultura de massas fácil de manobrar; ao invés de pregar a graça que foi de modo abundante derramada através de Cristo Jesus, passaram a demandar sacrifícios acompanhados de doações cada vez mais constrangidas, para que o fiel se tornasse apto para receber a bênção desejada. 


Líderes que ao invés de promoverem a mansa espiritualidade do cordeiro, promoveram a esquizofrênica espiritualidade do leão, que tenta transformar em “já” o “ainda não” do reino, enquanto transforma o “já” do reino em “nunca”; ao invés de viverem, sinalizarem e anunciarem o reino, passaram a caçar os principados e potestades nas regiões celestiais, ora localizando e derrubando os seus postes ídolos, ora ungindo de alguma forma criativa a cidade, inaugurando o que James Houston chamou de evangelização cósmica. 


Líderes que ao invés de fomentarem o surgimento da comunidade do Reino, importaram modelos de agrupamento que aumentam a produtividade da igreja na promoção do crescimento numérico, que passou a ser aval de benção divina; ao invés de pregarem e praticarem a vitória de Cristo na cruz e na ressurreição sobre todos os agentes do mal, passaram, de um lado, a pregar uma teologia que mais infundia medo do que fé, e, de outro lado, a, segundo, o articulista  Ricardo Machado, umbandizarem as igrejas.

 

É claro que tivemos problemas éticos em outros segmentos de igreja, sim, porque Igreja Brasileira é uma categoria ideológica evocada nas generalizações; o que existe, de fato, é uma gama de Igrejas no Brasil, não estou falando das divisões denominacionais, que, aliás estão desfiguradas, mas, dos vários jeitos de ser igreja, que acabam, por se constituir em segmentos estanques entre si. 


Houve segmento que, diante dessa realidade cruel  recrudesceu o fundamentalismo legalista e alienado, outro houve que assumiu a igreja como uma empresa, sonhando também com impérios,  e passou a importar modelos de gerenciamento que a organizasse, desenvolvesse excelência ministerial, e produzisse crescimento, usando, muitas vezes, o princípio do “apartheid”; e as ovelhas foram feitas mão de obra e os pastores foram feitos gerentes de programa. 

Graças a Deus, porém, não precisamos entrar em desespero, pois, a crise na fé cristã não é o pecar é o não se arrepender. E há sinais de arrependimento. Pois há o outro lado: Jesus Cristo não diz apenas: “vós não sabeis de que espírito sois”,  diz, também: “vinde benditos de meu pai”. 


Nos vários segmentos da igreja, a resposta apareceu: pipocaram programas de ação social, creches, distribuição de cestas básicas, distribuição de alimentos para moradores de rua, entre outros. Os programas começaram assistencialistas, mas, pouco a pouco, foram se tornando mais voltados para soluções estruturais. 


Milhares de ONGs foram criadas com as mais diferentes finalidades de cunho social: escolas, casas-lar, programas de desenvolvimento comunitário, programas de alfabetização, e muito mais. Um leve mas decisivo movimento do Espírito tem se feito sentir cada vez mais, o interesse de grupos dos vários segmentos em se ajuntarem numa frente evangélica pela inclusão social. 


É crescente interesse dos jovens, pastores e leigos, no significado dessa resposta, na retomada da questão da espiritualidade, iniciada por parte do segmento da missão integral, nos fazendo revisitar a patrística, nos encorajando a repensar o fazer pelo fazer. São sinais que evidenciam esse movimento discreto mas firme do Espírito de toda a consolação, que nos está reconduzindo a coerência.  


É daqui que temos de continuar. Temos uma teologia para desenvolver, precisamos, sob essa nova ótica, repensar a teologia sistemática e a identidade protestante; temos uma espiritualidade para retomar, a espiritualidade do Cordeiro; temos uma igreja para edificar, de modo que, pelo menos nela, todas as raças e classes desapareçam dando lugar à única raça que Deus criou, a raça humana; e, com o fim das classes, todos sejam gente como gente tem de ser, à imagem de Jesus de Nazaré. 


Temos um país para influenciar, temos profecia a proferir. Precisamos refletir, a partir dessa compreensão teológica, sobre o labor político e partidário; sobre economia; sobre genética; sobre bioengenharia; sobre a globalização, sobre a chamada pós-modernidade, sobre a nova sexualidade, sobre a fermentação religiosa, sobre o desafio do Islã, sobre formas de fazer entendida a mensagem da cruz, num mundo em mutação; sobre a questão agrária e o meio ambiente; sobre a urbanização na América Latina; sobre a relação da igreja com o estado. 


Temos de retomar o movimento de missão transcultural,dentro e fora de nossas fronteiras.


Temos de nos encontrar mais, trabalhar mais juntos, abrir o círculo para que novos não só sejam atraídos, como já o estão sendo, mas, para que se sintam bem vindos e em casa. Temos um reino para viver e para manifestar. E não estamos sós: o Senhor Jesus está  onde sempre esteve, reinando sobre sua Igreja e sobre todo o universo; e o Espírito Santo está aqui, pairando sobre o caos, soprando vida, levando a Igreja que está no Brasil a um avivamento que ainda não conheceu, o avivamento que chama à história o clamor de Jesus, retratado por Lucas: “Bem aventurados os pobres porque deles é o Reino de Deus."

Uma esquerda religiosa e sem esperança - Filipe Samuel Nunes em Gospelprime

As pilhagens e o gosto pela violência que atravessa os Estados Unidos têm surpreendido o mundo. Alguns argumentarão que o problema racial é...