quinta-feira, 23 de setembro de 2010

PARA NÃO DIZER QUE EU NÃO FALEI DAS FLORES - POR PAULO CILAS (reprise de outra primavera)



Essa música de Geraldo Vandré marcava uma era de revolta e insatisfação contra um regime político. As flores do título representavam a possibilidade de liberdade, uma liberdade ideológica que talvez só trocaria um regime ditatorial por outro. As flores na música poderiam ser tanto um desejo verdadeiro de justiça e liberdade como a anarquia de muitos que abraçavam uma luta sem nem mesmo saber do se tratava e tudo que a envolvia. Mencionar as flores serve para esse fim politico, como também, na pena de um poeta, exprimir sentimentos: “As rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume”...
Mas, quero falar de outras flores. Flores que estavam no Jardim do Éden, sejam as flores de um canteiro, sejam as flores que prenunciam os frutos. No Jardim da Perfeição, elas presenciaram tal perfeição ser contaminada, agredida, transformada e transtornada por uma atitude rebelde. Uma desobediência de quem não deveria obedecer por obrigação, mas por ser a melhor maneira de continuar caminhando entre as flores no jardim. Com a queda, as flores choraram. Não sei se foi aí que, junto com as rosas, apareceram também os espinhos. Fato é que está escrito que os cardos e abrolhos apareceriam também.
Salto a cena e vou para outro jardim, Getsemani. As flores desse jardim contemplam agora o Perfeito, o Cordeiro Imaculado experimentando a agonia, a angústia, a comoção que o faziam suar sangue. As flores, agora nascidas em terra impura, contaminadas pelo mal, também aguardam ansiosas que Ele vá até o fim, que Ele complete a sua missão e promova a redenção de toda a natureza que geme.
No primeiro jardim, o lugar era perfeito, o homem caído o contaminou. No segundo, “O Homem” era perfeito, e mesmo tendo tudo contra, Ele “fez seu rosto como um seixo”. Sinal de determinação de quem iria para a consumação de tudo. “Pelas suas pisaduras somos sarados” e "Ele olhará a nós e as flores, e com elas toda a criação e “verá o fruto do seu penoso trabalho”.
“Aparecem as flores na terra, chegou o tempo de cantarem as aves e a voz da pomba ouve-se em nossa terra. A figueira começou a dar seus figos e as vides, em flor, exalam seu aroma” (Ct.2.12,13)
Feliz Primavera!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ESTÁTUA!! - POR PAULO CILAS



A brincadeira era até legal. A um comando com o grito "estátua" todo mundo tinha de ficar paralisado. Claro que havia a tentativa de ludibriar o comando em busca de uma posição mais confortável e as brigas intermináveis sobre quem se mexeu primeiro. Mas, afinal, tudo era brincadeira.

Mas a Bíblia nos traz uma história de alguém virando estátua. E não foi de brincadeira: "E a mulher de Ló olhou para trás e converteu-se numa estátua de sal" Gn. 19:26.

Tentei entender essa passagem bíblica sem a contaminação das histórias narradas em livros mitológicos e transformadas em imagens nos filmes como “Fúria de Titãs”. Digo isso porque não poderia incorrer no erro de tentar imaginar a cena Bíblica como um conto tipo "As Mil e Uma Noites" ou da carochinha. Mas, como entender o que realmente se passou na fuga de Ló da cidade de Sodoma ,vizinha de Gomorra?

A luz é lançada através da advertência de Jesus: “Lembrai-vos da mulher de Ló”!! Lc. 17:32. É curioso O Senhor fazer menção de uma personagem que sequer tem seu nome citado. Ora, se a importância não está em seus feitos e nem em sua própria pessoa resta o capítulo final de sua vida. E o que foi essa cena final?

Imagine essa mulher apegada ao seu padrão de vida, às coisas adquiridas, ao estilo de vida dos moradores de Sodoma e de repente tendo de largar tudo aquilo? Ela olhou para trás porque com certeza lamentava sair dali, pois queria ficar. Em uma decisão mais grave, era como os hebreus desejando a volta ao Egito, querendo as iguarias egípcias. Com certeza houve ali um cataclisma envolvendo as entranhas da terra que passaram a cuspir para o ar fogo e enxofre e que, ante a ordem de Deus,agora caíam sobre aquelas cidades. No entanto, não só o enxofre caía, mas também um elemento fundamental daquele local: O sal. Que ainda hoje é visto no Mar Morto e em suas margens em alta densidade. Isso mesmo, das entranhas daquela terra foram cuspidas borras com este principal elemento.

E como aquela mulher não saiu correndo em disparada, em sua hesitação ela foi tomada por uma dessas borras, que a envolveu e ficou ali "estatelada".

Somos chamados a sair desse mundo, a corrermos desse mundo, não sermos amigos desse mundo. E aqui não falamos de bobagens criadas por religiosos - que vivem dizendo “o que pode e o que não pode”- mas do espírito maligno desse mundo. Estamos falando do império das trevas que tem governado aqui. Somos chamados a correr desse mundo, a olharmos a pátria além e se não entendermos isso, ficaremos obcecados pelas vaidades desse lugar e de seu espírito sombrio que tenta nos seduzir. Ficaremos com pena de deixar “as coisas boas”. Daremos valor aos sentimentos errados, como orgulhos e vaidades. As conquistas daqui nos encherão os olhos ... E passaremos a correr o risco de também ficarmos retidos pelos elementos principais que constituem esta Sodoma dominada pelo mal que ora tem como príncipe a satanas.

Ouçamos a voz de Deus ou ouviremos a voz desse mundo dizendo: Estátua!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A SALVAÇÃO: DA ARCA E A DE JESUS - POR PAULO CILAS



E lá estavam Noé e sua família sendo salvos da tragédia do dilúvio. Era uma boa salvação. Entretanto, por ser provisória, era uma salvação, diria, um tanto quanto desconfortável. Mesmo sendo a arca razoavelmente grande, ela estava lotada dos pares de animais – sete pares de puros e dois de impuros, todos cheirando mal. Já ficou perto de cachorro molhado? E de galinha? Para mim, naquele momento, todos estavam rebaixados à categoria de impuros, sujos.
E o que eles produziam ao longo da estadia de praticamente um ano na arca? É certo que a dieta era de acordo com a circunstância, entretanto, a produção de “adubo” da bicharada estava a todo vapor. E a arca não podia ser muito aberta e arejada por motivos óbvios. Ela era uma ilha cercada de água por todos os lados e, pelo menos durante quarenta dias, por cima também.
A situação não era fácil! Mas, ou aguentava o casal de bode suando ou caía fora morrendo afogado. A mesa das refeições devia ser uma festa. Os cheiros se confundiam. E como disse acima, a coisa demorou quase um ano, o que em lugar fechado, sem ter para onde ir e apenas fazendo as tarefas de manutenção, deve ter parecido uma década.
Um dia percebi que muitos, eu também, viviam a salvação como que dentro da arca. Uma salvação apertada, mal-humorada e que só valia à pena porque ou era ela ou a danação eterna. Havia ainda uma mórbida satisfação, algo como um prêmio, que era o fato do pessoal que vivia rindo, desfrutando do mundo, ir todo “pro inferno”! Sim, tal salvação parecia só fazer sentido se houvesse a certeza de que essa turma que não “tava” no mesmo aperto que eu fosse queimar no mármore do inferno.
Um dia abri os olhos! Li em Jo. 10:9 que Jesus é A PORTA! E ELE se apresenta como uma PORTA DE ENTRADA e, também, de SAÍDA. “Quem entra por esta PORTA, entra, sai e encontra pastagem, isto é, espaço, liberdade, VIDA ABUNDANTE!
Saindo da perdição, do império das trevas, eu entro para O REINO DO FILHO DO SEU AMOR e ali pela mesma porta eu saio para uma dimensão muito maior desse REINO. Eu descubro que estar em DEUS é muito mais do que escapar do mal. Que a vida é algo muito maior, superior, independente da morte. Sou livre, não troquei uma prisão por outra melhor. Não tenho uma salvação provisória e apertada. Muito menos preciso de arcas modernas maquiadas da embarcação de luxo - tudo tem sido feito para que as pessoas fiquem na “igreja”, trancadas nelas-. Eu entrei não para um lugar sem saída. “EU ENTREI PARA FORA”!!!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CAÍDO - POR PAULO CILAS


Certa vez, levantei-me publicamente contra um ensinamento de "conquista do Brasil", que declarava ter sido um ato profético de D. João VI o envio de Pedro Álvares Cabral e a escolha do nome de Santa Cruz e Vera Cruz para a terra recém-descoberta. Não quero me deter nessa sandice, até porque o seu idealizador continua a inventar mil e uma outras. E até hoje, apesar de divisões e rachas e mais loucuras megalomaníacas, são muitos que por ingenuidade ou interesses escusos ainda lhe dão ouvidos.
O quero dizer mesmo é que, diante da minha posição contrária, alguém disse a um membro de onde me reúno que eu deveria tomar cuidado com as críticas porque poderia "cair"um dia! Era um pastor dizendo isto. Traduzindo, mesmo não concordando deveria eu ficar calado porque sou pecador iminente.
De fato, quando entramos em algum "turbilhão", devemos saber se temos escopo -não ter telhado de vidro - para não sermos flagrados em hipocrisias e incoerências. Dai em diante aprendi algumas coisas importantes:

NÃO QUERO SER INCOERENTE E NEM HIPÓCRITA COM A PALAVRA DE DEUS. Por decisão, não por mérito, decido não usar A BÍBLIA em benefício próprio. Decido não ficar aquém e também não ir além do que ela realmente diz. Decido não querer conhecer somente o que está escrito, mas , também, o espírito do que está escrito. Decido não dizer que tenho uma revelação, ministério, visão, nova unção ou qualquer coisa que se diga especial ou mais espiritual pois: "Havendo Deus falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais , pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo..." Pois bem, agora não existe mais nada a ser dito, sacrificado, revelado. Resta-nos dar ouvidos às PALAVRAS DO SENHOR que nos são “lembradas” pelo ESPÍRITO SANTO. Há AS BOAS NOVAS (EVANGELHO) a serem anunciadas.
As conquistas serão de vidas rendidas a CRISTO, e não à minha igreja ou visão. A conquista será O REINO DE DEUS dentro do homem como JESUS afirma e não a conquista dos bens terrenos que só engrandecem aos homens e que despertam o que de pior existe:
soberba, vaidades, orgulhos e tantos outros sinônimos possíveis e imagináveis.

DECIDO QUE SOU PECADOR CAÍDO! E só não digo que sou o principal porque o outro Paulo chegou na frente. Tenho um verme dentro de mim, pegando emprestado a afirmação de Larry Crabb no livro "Chega de Regras". E só eu e DEUS sabemos o tamanho desse verme.
E, assim, sabendo quem sou e do que sou capaz de fazer em minha maldade e fraquezas, não posso me dar ao luxo de distorcer a única mensagem que conseguiu e consegue me redimir.
Portanto, já não posso cair. Já sou caído desde o ventre de minha mãe como Davi. Acreditem! Até o bem que quero fazer não faço. E o mal,então? Este, só chorando ao PÉ DA CRUZ. Só pela CRUZ eu tive chance de ser perdoado e nela continuo a derramar minha alma até o dia em que o corruptível(eu) der lugar ao incorruptível.
Não!! Não sou advogado de JESUS e de seu EVANGELHO. Sou testemunha DELES e nenhuma mensagem enganosa, nenhum devaneio de homens vaidosos e ardilosos, nem mesmo a insensatez ainda que ingênua ou simplista de qualquer pregador imprudente e muito, muito menos meu estado de total dependência DA GRAÇA E MISERICÓRDIA DO SENHOR por ser quem eu sou me calarão.
"SEJA DEUS SEMPRE DEUS VERDADEIRO, E TODO O HOMEM MENTIROSO..." Como disse o apóstolo Paulo. Aquele vendido pelo pecado, o miserável homem. Aquele mesmo que se gloriava na sua fraqueza pois era assim que se via forte. E dizia não ter alcançado coisa alguma mas que prosseguia para o alvo. E, em recebendo algum louvor jamais se gloriava a não ser na CRUZ DE CRISTO e até repreendia espírito de adivinhação que dizia ser ele, Paulo, servo do DEUS altíssimo. Ou seja, O APÓSTOLO PAULO que jamais seria como os "apóstolos" atuais. Primeiro porque esses não o receberiam por estar fora da visão. Segundo, porque ele não comungaria com gente que tem como deus o próprio ventre!

VOTO BOM É VOTO LAICO - POR CARLOS CARRENHO

Quem determina se Deus é o Senhor é o povo, não seus governantes


Os melhores candidatos não são necessariamente aqueles que professam a mesma fé ou pertencem a determinada denominação

Lembro-me de que, quando eu era criança na igreja, algumas profissões eram consideradas quase do diabo. Entre elas, a de baterista, advogado e político.

Com o tempo, a bateria ganhou seu espaço nos altares das igrejas e os advogados viraram até presbíteros. Mas foi na área política que a coisa mudou radicalmente. Se, antes, a atuação política era desestimulada no rebanho e um crente ser vereador ou deputado era visto como um sacrilégio, agora já temos até bancada evangélica. A cada eleição, pastores candidatos pululam Brasil afora. Até aí, nada demais; cada um usa a plataforma que possui. Quem é radialista, por exemplo, apela aos votos dos ouvintes; sindicalistas recorrem ao pleito dos operários; produtores rurais buscam apoio de colegas agricultores. Portanto, quem vem da Igreja tem mais é que conseguir votos na Igreja e defender seus interesses.

Isso quer dizer então que cristão deve votar em cristão, crente em crente, evangélico em evangélico? Aí minha resposta é um esplendoroso não. Explico. Quando precisamos de um cardiologista, recorremos ao melhor especialista que podemos pagar ou vamos a um médico cristão? Quando o carro quebra, procuramos um bom mecânico ou simplesmente um profissional que se apresente como crente? E se formos comprar um bolo, nossa preferência será pelo mais saboroso ou optaremos por aquele feito por uma irmãzinha na fé, ainda que não agrade tanto ao paladar? E as obras? Confiamos nossos prédios a um engenheiro competente ou damos preferência ao evangélico, simplesmente porque é evangélico?

Ainda que muitos de nós favoreçamos membros de nossa comunidade eclesiástica, só o fazemos porque acreditamos e confiamos nos profissionais em questão. Em primeiro lugar deve vir a capacidade do indivíduo para realizar a tarefa a que se propõe, e depois sua opção religiosa. Por isso, ao votar, todo cristão (e cidadão) tem a obrigação perante a sociedade de tomar a mesma atitude e escolher quem acredita ser o melhor o candidato – o que não necessariamente inclui aqueles que professam a mesma fé ou pertencem a determinada denominação.

Há cristãos na política que dão um grande testemunho e atuam visando ao bem estar da sociedade. Da mesma forma, há pessoas de outros credos extremamente honestas e fazendo um ótimo trabalho parlamentar ou governamental. E há políticos pilantras de todas as crenças, ou de crença nenhuma, que agem só visando aos próprios interesses. Ou seja, religião nenhuma é garantia de caráter ou idoneidade.

Como cristãos, devemos amar nosso próximo como a nós mesmos – o que também significa votar pelo outro, votar pela sociedade. Devemos, portanto, escolher o melhor candidato não apenas para nós mesmos, mas para todo o grupo social ao qual pertencemos. Esta mentalidade de voto, que é absolutamente cristã, é muito mais importante que a religião do candidato. Mas e o versículo que diz “Feliz é nação cujo Deus é o Senhor”, em Salmos 33.12? Para começar, Deus ser Senhor é diferente de bispo ser presidente, pastor ser senador e evangélico ser deputado. A religião professada pelos políticos não garante a senhoria divina. Quem garante que Deus é Senhor é toda a nação, toda a sociedade. Um país com um presidente cristão e uma população descrente não terá Deus como Senhor. E um estado com uma população cristã poderá proclamar Deus como Senhor, ainda que seus governantes não professem tal fé. Quem determina se Deus é o Senhor é o povo, não seus governantes. Trata-se da mais pura democracia divina.

Quer dizer então que não voto em cristão? Nada poderia ser mais falso. Nesta próxima eleição presidencial, por exemplo, estou propenso a votar em uma candidata cristã – até porque os outros dois concorrentes me desagradam, um pelo partido e outro, pelo caráter. Mas vou votar nela porque é cristã? Jamais. É porque acredito que ela é a melhor candidata para o país, para mim e, mais importante, para meu próximo. E ainda votaria mesmo se ela declarasse que não acredita em Deus…


Carlo Carrenho - DO SITE CRISTIANISMO HOJE

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O COLAPSO DO MOVIMENTO EVANGÉLICO - POR RICARDO GONDIM

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.


É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.


Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

1. A teologia da Graça

Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “ garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.


Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.


Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).


Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portras do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.


2. A compreensão da Fé

“A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.

“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).

Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.

Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.

O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.

A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.

O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.

Soli Deo Gloria

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

JESUS NÃO ERA CRISTÃO - POR AUGUSTUS NICODEMUS LOPES

Muita gente pensa que sim. Todavia, a religião de Jesus não era cristianismo. Explico. Jesus não tinha pecado, nunca confessou pecados, nunca pediu perdão a Deus (ou a ninguém), não foi justificado pela fé, não nasceu de novo, não precisava de um mediador para chegar ao Pai, não tinha consciência nem convicção de pecado e nunca se arrependeu. A religião de Jesus era aquela do Éden, antes do pecado entrar. Era a religião da humanidade perfeita, inocente, pura, imaculada, da perfeita obediência (cf. Lc 23:41; Jo 8:46; At 3:14; 13:28; 2Co 5:21; Hb 4:15; 7:26; 1Pe 2:22).

Já o cristão – bem, o cristão é um pecador que foi perdoado, justificado, que nasceu de novo, que ainda experimenta a presença e a influência de sua natureza pecaminosa. Ele só pode chegar a Deus através de um mediador. Ele tem consciência de pecado, lamenta e se quebranta por eles, arrepende-se e roga o perdão de Deus. Isto é cristianismo, a religião da graça, a única religião realmente apropriada e eficaz para os filhos de Adão e Eva.

Assim, se por um lado devemos obedecer aos mandamentos de Jesus e seguir seu exemplo, há um sentido em que nossa religião é diferente da dele.

Quando as pessoas não entendem isto, podem cometer vários enganos. Por exemplo, elas podem pensar que as pessoas são cristãs simplesmente porque elas são boas, abnegadas, honestas, sinceras e cumpridoras do dever, como Jesus foi. Sem dúvida, Jesus foi tudo isto e nos ensinou a ser assim, mas não é isso que nos torna cristãos. As pessoas podem ser tudo isto sem ter consciência de pecado, arrependimento e fé no sacrifício completo e suficiente de Cristo na cruz do Calvário e em sua ressurreição – que é a condição imposta no Novo Testamento para que sejamos de fato cristãos.

Este foi, num certo sentido, o erro dos liberais. Ao removerem o sobrenatural da Bíblia, reduziram o Jesus da história a um mestre judeu, ou um reformador do judaísmo, ou um profeta itinerante, ou ainda um exorcista ambulante ou um contador de parábolas e ditos obscuros que nunca realmente morreu pelos pecados de ninguém (os liberais ainda não chegaram a uma conclusão sobre quem de fato foi o Jesus da história, mas continuam pesquisando...). Para os liberais, todas estas doutrinas sobre o sacrifício de Cristo, sua morte e ressurreição, o novo nascimento, justificação pela fé, adoção, fé e arrependimento, foram uma invenção do Cristianismo gentílico. Eles culpam especialmente a Paulo por ter inventando coisas que Jesus jamais havia dito ou ensinado, especialmente a doutrina da justificação pela fé.

Como resultado, os liberais conceberam o Cristianismo como uma religião de regras morais, sendo a mais importante aquela do amor ao próximo. Ser cristão era imitar Cristo, era amar ao próximo e fazer o bem. E sendo assim, perceberam que não há diferença essencial entre o Cristianismo e as demais religiões, já que todas ensinam que devemos amar o próximo e fazer o bem. Falaram do Cristo oculto em todas as religiões e dos cristãos anônimos, aqueles que são cristãos por imitarem a Cristo sem nunca terem ouvido falar dele.

Se ser cristão é imitar a Cristo, vamos terminar logicamente no ecumenismo com todas as religiões. Vamos ter que aceitar que Gandhi era cristão por ter lutado toda sua vida em prol dos interesses de seu povo. A mesma coisa o Dalai Lama e o chefe do Resbolah.

Não existe dúvida que imitar Jesus faz parte da vida cristã. Há diversas passagens bíblicas que nos exortam a fazer isto. No Novo Testamento encontramos por várias vezes o Senhor como exemplo a ser imitado. Todavia, é bom prestar atenção naquilo em que o Senhor Jesus deve ser imitado: em procurarmos agradar aos outros e não a nós mesmos (1Co 10:33 – 11:1), na perseverança em meio ao sofrimento (1Ts 1:6), no acolher-nos uns aos outros (Rm 15:7), no andarmos em amor (Ef 5:23), no esvaziarmos a nós mesmos e nos submeter à vontade de Deus (Fp 2:5) e no sofrermos injustamente sem queixas e murmurações (1Pe 2:21). Outras passagens poderiam ser citadas. Todas elas, contudo, colocam o Senhor como modelo para o cristão no seu agir, no seu pensar, para quem já era cristão.

Não me entendam mal. O que eu estou tentando dizer é que para que alguém seja cristão é necessário que ele se arrependa genuinamente de seus pecados e receba Jesus Cristo pela fé, como seu único Senhor e Salvador. Como resultado, esta pessoa passará a imitar a Cristo no amor, na renúncia, na humildade, na perseverança, no sofrimento. A imitação vem depois, não antes. A porta de entrada do Reino não é ser como Cristo, mas converter-se a Ele.

Uma esquerda religiosa e sem esperança - Filipe Samuel Nunes em Gospelprime

As pilhagens e o gosto pela violência que atravessa os Estados Unidos têm surpreendido o mundo. Alguns argumentarão que o problema racial é...