sábado, 18 de julho de 2015

Os Evangélicos progressistas e o caso da cruz de Espinal - Guilherme de Carvalho





O que se segue é a minha reflexão sobre o caso da “Cruz de Espinal” e, particularmente, da tremenda confusão hermenêutica e teológica que ela se mostrou para muitos cristãos brasileiros. É também uma advertência ao progressismo evangélico, tendo em vista suas condições de sobrevivência para o futuro.

O EVANGELHO DA CRUZ E O EVANGELHO DA VÍTIMA


Quem adoramos quando contemplamos a cruz? Para os Cristãos, o Deus-Homem, ali crucificado, ali vitorioso sobre o mal e salvador do mundo, ali reconciliador do homem com Deus. Não adoramos “a cruz”; a cruz é instrumento de tortura, o símbolo do poder Imperial, o símbolo da potência criada por Cristo, mas dele desviada por Satanás. Não adoramos meramente “o crucificado”, como se sua história houvesse se encerrado ali, no gólgota, mas aquele que foi crucificado e hoje é ressurreto, e vive para sempre, e nós, Nele. Mas podemos sim, dizer que adoramos o nosso Deus, o Deus que, no homem-cordeiro, foi crucificado, o logos que se humilhou, e que anunciamos a Cristo, e a este crucificado.

Adoramos a vítima? Sim… e não. Sim, porque Jesus foi vítima do poder imperial; não, porque ser vítima não é, em si, mérito. Poderia o homem ser justificado pela vitimização? Não; jamais. A vítima deve ser pura, reta; deve ser sem mácula. É a justiça da vítima que justifica, não a vitimização. A vitimização é o crime, é a violência contra Deus e o seu universo. Que justiça pode vir da pura vitimização?

Ainda mais porque a vítima não é vítima, em última instância, se é culpada, se tem mácula. Pois nesse caso, ela não é vítima mas algoz, ainda que travestida de vítima; algoz do outro, algoz de si mesma (quando se tem a persistente oportunidade de transformar a vitimização em mera tragédia romântica, ou até de transferir a culpa) mas sempre algoz do Filho de Deus.


Todos somos algozes de nós mesmos, e uns dos outros, e todos, de Deus. Todos somos também vítimas uns dos outros, mas não de Deus, pois ele não é um criminoso; ele é o justo juiz de toda a terra, e nunca vitimizará o seu mundo, embora certamente seja um juiz terrível.

Por isso, sem jamais ser o ofensor, ele pode ser a vítima e o juiz; só Deus pode ser a vítima; só o homem-Deus pode apresentar-se como vítima. Pois ele não tem mácula; ele é o justo, no sentido absoluto – embora existam justos na terra, os quais no entanto só são justos porquê e quando lhes é concedido participar da justiça do Justo, o Cristo; e toda a sua justiça terrena nunca é mais do que um sinal e uma expressão da justiça do Justo.


Jesus Cristo é a vítima do mundo? Sim; sim de um ponto de vista puramente imanente. É mais uma das vítimas que fazemos todos os dias. Nesse sentido Jesus “é” o judeu marrano, e o judeu em Auschwitz; Jesus “é” o pobre, o cego, o nu, o encarcerado; Jesus “é” o travesti injustiçado; Jesus “é” a criança abandonada; jesus “é” o adolescente infrator que se tornou infrator porque foi esmagado por um sistema injusto; Jesus “é” a mãe solteira e pobre que afogou as mágoas em uma noite de sexo. Jesus “é” a vítima por excelência.

Mas não, sabemos que Jesus não é nenhum deles, em um sentido teológico. Pois “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23) – a criança, o velho, o jovem, a prostituta, o travesti, o ladrão pobre que é linchado no poste, o ladrão rico e amado pelas esquerdas Brasileiras, o cristão-contemporâneo que faz sexo fora do casamento porque seu pastor moderninho liberou, o publicano, o papa, Obama e Osama, Francis Schaeffer e Paul Tillich… somos todos algozes, meus irmãos. E aqueles de nós que foram vitimados na infância, só não saíram da potência ao ato porque não tiveram tempo e oportunidade para tanto.

Mas não se apresenta o Cristo no fraco, no pobre, no encarcerado? Não é o que ensina a parábola das ovelhas e dos bodes, em Mateus 25? Nossa resposta ao Cristo não se manifesta em nossa resposta às vítimas ao nosso redor?

Sem dúvida; mas notemos o fundamental: não é porque essas vítimas são vítimas, que sinalizam o Cristo, como se a vitimidade fosse, em si mesma, Crística. Essa é a falácia do ressentimento, que perversamente se alia, no espírito, ao sofrimento do outro, não por compaixão pela humanidade que nos é comum, mas pela partilha ímpia da mágoa e do ódio reprimido, que tragicamente também nos é comum.

Ademais, o que diz o texto sobre as vítimas? Na verdade, nada se diz sobre serem vítimas inocentes. O sujeito pode ter fome e sede porque foi explorado; mas pode ter fome porque houve uma grande seca, ou porque foi preguiçoso; ainda assim, devemos alimentá-lo. Ele pode estar nu porque despiu-se, porque vendeu o apartamento, e depois o carro, e depois os móveis e depois as roupas, para drogar-se; mas devemos vesti-lo. Ele pode estar doente porque carrega uma doença genética; ele pode estar na prisão porque é criminoso; ele pode ser estrangeiro porque é… bem, estrangeiro.

Não ignoro a tradição profética que associa esses indivíduos em situação de risco à opressão política e econômica; mas a tradição Bíblica nunca tornou a pobreza e o sofrimento em virtudes per se; nunca vinculou o dever do amor ao próximo a uma suavização da culpabilidade e da alienação humana.

E por isso mesmo, as Escrituras nunca trataram a Cruz de Jesus Cristo como salvadora meramente por ser uma cruz. Ela é salvadora porque é a Cruz do Cristo, a única vítima verdadeira, mas também a única capaz de transmutar sua vitimização na Reconciliação de todas as coisas. É a redenção de Cristo que torna especial a Cruz de Cristo. É o sangue do Cordeiro o que torna aceitável o sacrifício e o transfigura, de feio crime, em belíssimo ato Redentivo de Deus.

O que dizer das vítimas que fazemos diariamente? Podem apenas sinalizar, lembrar a vítima que é Cristo; mas acima de tudo, lembremos que tais sacrifícios são sempre impotentes. Eles só nos lembram de que somos culpados; nos lembram que somos os ofensores de nós mesmos; não são atos de Deus, mas nos fazem lembrar de que estamos eternamente perdidos sem um ato de Deus. Nas mãos de Deus, a vitimização do Cristo é a salvação do mundo; mas as “vitimizações” secundárias que realizamos diariamente não são sinais salvadores! São sinais, irmãos, do JUÍZO do mundo!
E Deus prosseguiu: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão está clamando a mim desde a terra. Agora, maldito és tu (Gn 4.10-11)
É isso, e apenas isso, o que o estrangeiro oprimido, o pobre humilhado, o órfão abandonado, o travesti assassinado, o jesuíta martirizado pela ditadura, podem dizer: que agora, somos malditos; todos nós. Mas não é assim com a cruz de Cristo. Pois “Cristo nos resgatou da maldição da lei, tornando-se maldição por nós” (Gl 3.13).

A cruz de Cristo, e só a Cruz de Cristo, transcende a má notícia da maldição! Somente o Cristo na cruz pode transmutar a cruz, de maldição, em salvação! Só Cristo pode transformar o sentido de um símbolo tão terrível em algo tão glorioso, a ponto de o apóstolo dos gentios descrever seu evangelho como “a palavra da Cruz”. Cristo reconciliou consigo todas as coisas, todas… até mesmo a cruz, o aguilhão do império!

Mas isso não transmuta todas as cruzes do mundo, automaticamente. Não; pois não é um “princípio abstrato” de cruz o que nos salva, mas a cruz do Cristo Histórico. Aquela cruz específica, singular, historicamente localizada, erguida de uma vez por todas. Mas essa cruz pode ser presentificada pelo Espírito de Deus, quando o discípulo de Jesus toma a sua cruz, cheio da Esperança da Ressurreição, e com isso transmuta o sentido da sua própria cruz em sinal de vitória sobre o mal. Mas tal luminosidade não procede de sua vitimidade, nem do seu mérito individual; procede da presentificação do único Salvador, Cristo. Assim as nossas cruzes deixam de ser maldições, e se tornam cristãs.

Mas como aparece o Cristo no fraco? Não em sua fraqueza nua, como se o fraco fosse por isso um salvador (e como Nietzsche deseja ver o Cristianismo), mas porque sua fraqueza me confronta com a criaturidade humana e com a maldição humana. Não há evangelho no sofrimento que causamos uns aos outros, e nas ofensas que cometemos contra nós todos os dias. Não há evangelho na injustiça social, nem na doença, nem na ladroagem, nem no preconceito. A criança não é messiânica; o travesti não é messiânico; o Lula não é messiânico; o negro não é messiânico; o pobre não é messiânico. Também não há evangelho na luta humana contra a injustiça e o sofrimento, assim como não havia evangelho na luta farisaica contra o pecado. Mas todas essas situações são oportunidades de nos lembrarmos de que precisamos do messias, porque sem ele, somos todos malditos.

O Evangelho verdadeiro não é mediado pelo “messianismo” do pobre, o “messianismo” da vítima do sistema. O sistema é satânico, os ofensores são malditos, e suas vítimas, miseráveis. O Evangelho verdadeiro não é mediado pela luta humana contra a injustiça humana, pois as nossas justiças não passam de trapos de imundícia. O Evangelho verdadeiro não é o evangelho da vítima, inventado por homens amargos e maquiado intelectualmente pela New Left. O Evangelho verdadeiro não diz respeito ao que os homens fazem, ou pensam que fazem, ou pensam que deveriam fazer, ou sentem que deveriam fazer, mas ao que DEUS faz pelos homens, na SUA cruz.


É A “CRUZ DE ESPINAL”, “EVANGÉLICA”?

“Alexamenos Adora a Deus”, é o que reza a “legenda” no grafite do Palatino, em Roma, datado do século III A.D. E ali está… um asno crucificado. Um asno! Foi, assim, chamado de “O Grafite Blasfemo”.

Quis o pagão ridicularizar o fiel, transmutando o caráter o crucificado, e não tanto o sentido da cruz. Não é um Deus; é um asno. Esse que está sobre cruz não é isso tudo que pensa e crê entre os fiéis.

Mas, como disse um amigo, o Diabo é ambidestro. Não há uma única forma de enfraquecer a igreja de Jesus. Podemos atacar a mensagem da Cruz diretamente, desavergonhadamente, profanando a imagem do Cristo: “um asno!”. Mas o departamento de contrainformação do inferno é mais sutil do que isso. Porque não… enfraquecer a mensagem da Cruz “por dentro”, correndo o seu sentido por meio das línguas, das bocas, das canetas (e, agora, das timelines) dos próprios seguidores do Cristo?

Consideremos a cruz de Evo Morales; a cruz, na verdade, do padre Jesuíta espanhol Luis Espinal Camps, covardemente assassinado por um esquadrão da morte em 21 de Maio de 1980, sob ordens do ditador de direita Garcia Meza. Segundo o papa Francisco, ele foi morto por “dizer verdades”. Pois o evangelho incomoda.

Seria a morte de Espinal uma morte evangélica? Inclino-me a acreditar que sim. Pois se morreu em defesa dos oprimidos, e sofreu imitando a Cristo, e se entregou por saber-se reconciliado por Deus pela única vítima, Jesus Cristo, morreu evangelicamente. Morreu na cruz preparada por um governo ditatorial de direita; lembrou, então, não apenas que somos todos amaldiçoados, mas também que podemos ser, todos, perdoados e abençoados. Se assim foi, bendito seja o padre Espinal. Peço a Deus que me faça digno de desatar a correia de suas sandálias na Nova Criação.

Seria a “cruz de Espinal” uma cruz evangélica? Não a crucificação do próprio Espinal, mas a sua peça artística, o assim-chamado “crucifixo comunista”?




Segundo o presidente Evo Morales, que presenteou o papa Francisco com a escultura, ela seria uma reprodução de uma cruz atribuída a Espinal, que mostra o Jesus Cristo crucificado sobre a combinação da Foice com o Martelo – o símbolo da união entre as forças dos trabalhadores campesinos e do operariado, para constituir a força proletária em luta por justiça e pelo socialismo. Esse símbolo foi apropriado pelo socialismo marxiano e tornou-se, enfim, o símbolo máximo do comunismo internacional.


A situação causou espécie; embaraço, risos, denúncias. Foi descrita por um líder católico boliviano como uma… “travessura”. E que travessura!

A pergunta que se coloca é muito clara: é a cruz de Espinal uma cruz evangélica?

Para ser evangélica, deve anunciar a mensagem da cruz; isso é muito simples. Sejamos empáticos, então: aparentemente, Espinal quis associar o sofrimento do Cristo, na cruz, com o sofrimento e a luta dos trabalhadores por justiça social. De algum modo, então, a morte de Cristo na cruz estaria associada à vitimização e ao sacrifício do trabalhador oprimido pelo capitalismo.

Mas como exatamente seria essa associação? Não sabemos o que passou pela cabeça do sacerdote, como mais de um simpatizante já confessou. Mas podemos fazer hipóteses. Tenho três:

(1) Poderia ser uma denúncia do poder imperial do comunismo internacional, responsável pelo derramamento do sangue de milhões de cristãos; nesse caso, seria uma peça artística de significação martiriológica. Mas esse não parece ser o caso, já que o padre não era, exatamente, um crítico do comunismo; e sua luta histórica era contra uma ditadura de direita. É improvável, portanto, a tese martiriológica, que seria interessantemente evangélica, embora desagradável para os simpatizantes do neopopulismo latinoamericano.

(2) Poderia ser uma denúncia do poder imperial da direita, que oprime e “crucifica” o proletariado, assim como crucificou a Cristo. Nesse caso, o Cristo do crucifixo não seria o próprio Cristo, mas um representante do trabalhador vitimizado pelo sistema. Nos termos que explanei acima, esse seria um uso não-evangélico e vitimista da cruz.

(3) Poderia ser uma denúncia do uso ideológico da crítica produzida pelo poder imperial, como forma de justificar a “crucificação” do trabalhador. Em outros termos: o poder imperial de direita emprega o rótulo “comunista!” como forma de achincalhar e desempoderar o discurso e ação libertadora do proletariado oprimido.

São minhas três hipóteses. Pessoalmente, gosto muito da terceira; ela tornaria a cruz de Espinal um poderoso símbolo contra o uso ideológico do símbolo ideológico – no caso, o que se tornou o símbolo do comunismo – como forma de desqualificar toda e qualquer ação em nome da justiça social ou econômica, ou em defesa do campesinato ou do operariado, ou de recuperação da dimensão social e política do profetismo Bíblico, e posicionamentos semelhantes. Se Espinal pensou nisso, ele foi genial!

Não há evidências disso, no entanto; ninguém se apresentou com essa interpretação, além de mim, menos ainda traçando-a ao discurso próprio Espinal. Mas esse não é o único nem o maior problema da minha hipótese preferida: o maior é, enfim, que nesse caso o símbolo não é evangélico. É apenas um jogo simbólico político. O Cristo seria puramente acidental, como quando dizemos que “Neymar foi crucificado” após alguma declaração inoportuna. Tratar-se-ia de uma metáfora, num sentido Ricoeuriano, em que os sentidos anteriores foram quebrados e esmagados, e de sua síntese emergiu outro sentido. OUTRO sentido: uma denúncia da máquina de propaganda da ditadura de direita.

Ora, ficamos, então, com o sentido mais imediatamente reconhecido pelo populacho, e discutido nas redes sociais: Cristo, o representante do oprimido social, crucificado pela mesma razão que o oprimido é crucificado: por lutar por sua liberdade e dignidade, interpretada pela causa socialista.

Se assim for, a peça não é evangélica, não é realmente cristã. Não seria preciso crer em Cristo como o Cristo de Deus para compor essa metáfora concreta que é o foicefixo. Bastaria admirar a Cristo como exemplo de luta por justiça. O Cristo no foicefixo é qualquer um que sofre injustiça; qualquer um. Na verdade, sem o Cristo verdadeiro, o foicefixo poderia ser empregado para afirmar a inocência da vítima do capital, a classe trabalhadora. Jesus seria mais uma vítima desse sistema; e só. A peça prestar-se-ia, então, ao messianismo do pobre, que não é o verdadeiro Evangelho. Ainda serviria, no entanto, como instrumento de crítica política.

MAS NÃO É SIMPLES ASSIM

Infelizmente, não é tão simples assim. Talvez isso fosse viável, se a foice com o martelo já não tivessem uma história muitíssimo conhecida em todo o mundo ocidental. O símbolo foi inocente, na primeira ou na segunda era da Terra Média; mas a terceira Era alterou permanentemente o seu significado. Todos sabemos porque o símbolo do comunismo é proibido, em países um dia comunistas, como a Polônia, juntamente com a Suástica Nazista: é porque esses símbolos foram cooptados, profanados, indelevelmente marcados e incorporados em programas políticos anti-humanistas, genocidas e satânicos, para usar palavras suaves.

O sentimentalismo procurou lembrar a todos de que num passado distante esses símbolos significaram outra coisa. É verdade; mas a história andou. Eles não significam mais o que significavam, porque o mundo não é mais aquele. O mundo depois de Lenin, de Stálin, de Pol Pot, de Mao, de Fidel, do MR8, não acomoda mais a forma pura e inocente (se um dia o foi) da foice e do martelo.

Mas e quanto à cruz? Não pode ela também ter seu sentido ultrapassado? Ora, essa pergunta só é aceitável na boca de um pagão. Que nenhum Cristão ouse fazê-la; pois “o Cordeiro de Deus foi morto antes da fundação do mundo”. A cruz de Cristo (sempre entendida como “Cristo, e este crucificado”, e nunca apenas dois paus cruzados) é um fato histórico singular, ancorado na eternidade; é um ato de Deus, não um projeto dos homens. Ela está na história, mas é TRANSISTÓRICA. Por isso, não passa, como aquele que faz a vontade de Deus, e permanece para sempre.

Por outro lado, a finitude e determinação histórica do símbolo do comunismo é, ainda, incontornável. A aberração simbólica, ainda que “bem intencionada” de Espinal não tem a potência de quebrar esse condicionamento histórico e nos fazer esquecer do grotesco que foi e que brotou dessa religião secular. Irritam-se os simpatizantes de Morales que os milhões mortos pelo comunismo sejam sempre lembrados, mas não é assim que se trata uma memória dolorida com esta – com a negação. O fundo histórico que acompanha este símbolo é pesado demais para que Espinal efetive com sucesso uma síntese plástica com a mensagem Cristã. A verdade é que a cruz de Espinal se aproxima, demais, de um símbolo ambíguo, útil para confundir o Cristão sobre a relação entre a fé e o Comunismo. Mas essa confusão não pode ser feita. Aqui Franklin Ferreira trouxe à memória a encíclica DIVINIS REDEMPTORIS de Pio XI (1938):
“A doutrina comunista que em nossos dias se apregoa, de modo muito mais acentuado que outros sistemas semelhantes do passado, apresenta-se sob a máscara de redenção dos humildes. E um pseudo-ideal de justiça, de igualdade e de fraternidade universal no trabalho de tal modo impregna toda a sua doutrina e toda a sua atividade dum misticismo hipócrita, que as multidões seduzidas por promessas falazes e como que estimuladas por um contágio violentíssimo lhes comunica um ardor e entusiasmo irreprimível, o que é muito mais fácil em nossos dias, em que a pouco eqüitativa repartição dos bens deste mundo dá como conseqüência a miséria anormal de muitos. Proclamam com orgulho e exaltam até esse pseudo-ideal, como se dele se tivesse originado o progresso econômico, o qual, quando em alguma parte é real, tem explicação em causas muito diversas, como, por exemplo, a intensificação da produção industrial, introduzida em regiões que antes nada disso possuíam, a valorização de enormes riquezas naturais, exploradas com imensos lucros, sem o menor respeito dos direitos humanos, o emprego enfim da coação brutal que dura e cruelmente força os operários a pesadíssimos trabalhos com um salário de miséria.”
Chega muito perto do cinismo, se for mais do que ingenuidade ou sentimentalismo ideológico, a tentativa de ignorar esse fato incontornável da história moderna para recuperar o substrato válido do símbolo comunista, enterrado sob camadas e camadas de injustiça, corrupção e morticínio, para torna-lo – justamente ele – uma releitura da cruz do Cristo. Quem compreenderia essa sutileza artística? Os trabalhadores? Bem, eles não entenderam nada. De minha limitada perspectiva, com a exceção daqueles já ideologicamente doutrinados, o povo fez para o crucifixo a mesma cara que fez o Papa Francisco.

O CRISTO SUPERESTRUTURAL

Mas era isso diferente bem antes da travessura de Evo Morales, quando o querido mártir supostamente compôs a peça? Precisamos reconhecer: não. A essa altura o gulag já era um fato público, que nem o contexto violento e opressor das ditaduras latino-americanas poderia eliminar. Deveria Espinal ter usado esse símbolo manchado do sangue cristão? Não; e não queremos dizer, com isso, que ele deveria ter empregado um símbolo “do capital”. Na verdade, ele não deveria ter invertido de forma alguma a relação entre o Cristo e a cruz, a Vítima divinamente estabelecida e as vítimas/ofensores humanos, pois não se combate os Assírios colocando a confiança nos Egípcios. É idolatria aderir ao socialismo para livrar-se do ídolo capitalista, pois o socialismo e o capitalismo são, ambos, filhos bastardos do Cristianismo, quando este se deitou com a ideologia prometeica do progresso humano, a imanentização da Esperança Cristã. Os devotos religiosos e morais desses “ismos”, o capitalismo e o socialismo – o ídolo e o contra-ídolo – cridos como meios necessários e divinos para a redenção histórica do homem estão, ambos, jantando com o Diabo. Mesmo que sejam membros de igrejas.

A gênese do erro não está, portanto, em Evo Morales; ela vai até o padre Espinal, que independentemente de suas intenções (e reitero meus respeitos ao homem), construiu um artefato simbólico intrinsecamente problemático, intrinsecamente ambíguo, em todos sentidos: tanto do ponto de vista imanente, já que falha miseravelmente em vencer e ressignificar o símbolo do comunismo, quanto do ponto de vista transcendente, pois anuncia o evangelho da vitimização, e não o evangelho do Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. A cruz de Espinal não é uma cruz evangélica. É uma cruz ideológica, uma aberração simbólica; é um artefato problemático, que deseja unir Cristo e a luta social, mas o faz ao custo de sobrepor o crucificado à uma base herética e viciada. O crucificado, ali, não é o mesmo Cristo da Bíblia e da fé; é um Cristo marxiano clássico, o Cristo da superestrutura, o Cristo superposto a uma estrutura que o sustenta e o interpreta, que é… a ideologia.

A dificuldade foi definitivamente expressa pelo colega Rodolfo Amorim, de modo que reproduzo aqui seu comentário, na íntegra (feito no dia 10/07):
Se Espinal fez relações entre libertação de pobres e comunismo, deveríamos como cristãos tê-lo auxiliado a ler a realidade, não? Ou àqueles que conhecem a aberração simbólica por ele produzida. Não foi este comunismo que dizimou dezenas de milhões? Não foi ele que roubou das pessoas até sua consciência privada, algo custosamente sacralizado pelos cristãos? Não foi ele que tirou de seus súditos qualquer direito, a ponto de ser denunciado como o regime mais opressor da história? Portanto, não vejo coerência alguma, seja no símbolo criado por Espinal (não julgo sua vida, mas esta sua obra, ou fruto, específico) ou na atitude do Evo Morales por presentear um Chefe de Estado de, talvez, a representação com mais membros perseguidos pelo próprio sistema comunista (é só ler os relatos dos países do leste europeu com maioria católica e as perseguições e assassinatos sistemáticos feitos por aqueles a estes). Por isso, mesmo exagerando, comparo o ocorrido à imagem de um possível judeu confuso que talhou uma suástica de metal com o símbolo da estrela do Rei Davi, talvez o judeu fosse confuso em unir estes dois símbolos irreconciliáveis. Talvez fosse um ex-judeu. Talvez tivesse perdido a razão. Mas o fato é, se um líder de Estado presenteasse um chefe de estado de Israel com este símbolo, não haveria um, e digo com toda certeza, um judeu, que tentasse “explicar” aos incautos o motivo de tal aberração simbólica do confuso judeu-nazista. Mas com os cristãos, não. Eles ainda vêem a foice e o martelo e evocam imagens de libertação, de luta pelo pobre. É isso que me preocupa. Falta de coerência doutrinária interna e ausência de consciência histórica de muitos cristãos.

QUEM ENGOLIU UM CAMELO?

A princípio, diverti-me bastante com a situação. Pareceu-me cômica, principalmente pela expressão incrédula do Papa Francisco. Mas meu sorriso rapidamente se desvaneceu, quando vi irmãos conhecidos, ligados à ABU, à Rede Fale, à Renas, à Visão Mundial, à FTL, a diversas igrejas, e a outros movimentos evangélicos, defendendo calmamente a cruz de Espinal e o ato político de Evo Morales.

A naturalidade com que estes amigos aderiram festivamente à travessura de Morales revelou, de novo, o que a ala ainda sóbria da teologia evangélica Brasileira já notou há muito tempo: o Cristo de parte do progressismo evangélico nada mais é, hoje, do que um Cristo superestrutural.

Não penso que estou coando mosquitos, aqui. Estou, francamente, tentando arrancar esse enorme camelo que a esquerda evangélica engoliu, e que está parado em sua garganta. Esse camelo vai mata-los. Já está os matando. Mas eles não querem se arrepender. Não querem. É bem possível que morram espiritualmente, entalados com o ídolo ideológico, do qual o evento da cruz de Espinal é apenas a manifestação mais inocentemente pública.
Não sou alarmista, nem julgo injustamente os irmãos. Lembro aos leitores que a mesma ala que defendeu a crucificação Trans, na última parada LGBT, e não viu nenhuma profanação simbólica, é a que não viu agora nenhuma profanação simbólica, numa surpreendente demonstração de falta de escrúpulos religiosos.

Ora, é muito clara, aqui, a operação simbólica: a cruz, para esses irmãos, já não é o mistério do evangelho, já não está ancorada no eterno, já não anuncia o evento singular que foi a morte do Cordeiro de Deus; ela é um símbolo abstrato da vitimização por sistemas injustos, que pode ser amplamente empregada em qualquer situação de vitimização e, num passe de mágica, aquela situação se torna Cristã, se torna uma revelação do evangelho, e a luta social é instantaneamente convertida, batizada, e crismada. Quando eu era criança, via isso acontecer todas as manhãs pela tevê: a teóloga era a boneca Emília, e a magia vinha do seu pó-de-Pirlimpimpim.

Infelizmente, esses irmãos não são mais amigos da verdadeira cruz de Cristo, mas de uma mistificação ideológica; fazendo a igreja deitar-se no “leito” da cruz para dormir com outro Cristo – a ideologia de gênero, ou o marxismo – e louvando desavergonhadamente o adultério. Me digam amigos: não é a situação similar à do bezerro de ouro de Aarão, um símbolo sincrético para representar Iahweh de forma “contextualizada” (ou seja, com a forma de Baal) na AUSÊNCIA de Moisés (a profecia)? Não temos aqui uma blasfêmia, muito mais sutil do que o grafite blasfemo contra Alexamenos, mas ainda assim, mortal?

O NOVO BEZERRO DE OURO

E é assim que a cruz do Cristianismo (não a cruz de Cristo, a verdadeira) tornou-se, nas mãos do progressismo evangélico e católico, um bezerro de ouro. Há uma distante referência histórica, ao Deus que tirou o povo do Egito… e só. No mais, é uma divindade progressista; ela nos prepara para enfrentar o que há diante, Canaã; é um deus com o rosto das divindades locais, com o rosto de Baal-Peor.

Sobre esse perigo da ideologização idólatra da fé Cristã, não foi ninguém senão o próprio Papa Francisco quem nos presenteou com uma advertência muito contemporânea e pertinente, tratando esse erro como a PRIMEIRA tentação do discipulado missionário. Cito o trecho de Jonas Madureira:
Talvez seja interessante lembrarmos também das palavras do próprio Papa Francisco, quando veio ao Brasil por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude, no auditório do Centro de Estudos do Sumaré, Rio de Janeiro, Domingo, 28 de Julho de 2013:
“ALGUMAS TENTAÇÕES CONTRA O DISCIPULADO MISSIONÁRIO (…) 1. A ideologização da mensagem evangélica. É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja. Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu essa tentação sob a forma de “assepsia” . Foi usado, e está bem, o método de “ver, julgar, agir” (cf. n.º 19). A tentação se encontraria em optar por um “ver” totalmente asséptico, um “ver” neutro, o que não é viável. O ver é sempre influenciado pelo olhar. Não há uma hermenêutica asséptica. Então a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade? Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo. Assim se entendem os números 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e, atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta índole. Menciono apenas algumas: a) O reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até às categorizações marxistas. (…)”
Mas alguns de nossos teólogos, pastores, e militantes sociais evangélicos, tal qual Aarão, querem escapar a essa responsabilidade: “lancei o ouro no fogo, e saiu este bezerro!” Mas não foi o “fogo” o que plasmou o messianismo do pobre e o evangelho do ressentimento. Foi o trabalho teológico de teólogos latino-americanos, que plausibilizaram o Cristo superestrutural com o emprego acrítico de “mediações socioanalíticas”, e de teólogos evangélicos Brasileiros que, quando não promoveram essa releitura abertamente, deram sua anuência tácita, evadindo-se de condenar o que precisa ser condenado.

É verdade que o “rosto” desse novo ídolo não é o de um Bezerro, literalmente; ou de um Asno. Ainda assim, não é o rosto do próprio Deus. É uma forma mais sutil, mas possível, de idolatria: o culto da imagem do homem corruptível – no caso, o culto da vítima do sistema:
porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis. (Romanos 1.21-23)
Há tempos discutimos se há, ou não, idolatria no meio do progressismo evangélico. O fato, no entanto, é que as evidências disso se multiplicam. A última, muito clara, é esse Cristo superestrutural, a vítima abstrata que se torna um símbolo messiânico autônomo em relação ao Cristo histórico; que não é como o Asno de Alexamenos, mas é outro Cristo, ainda assim. E qualquer “outro” Cristo, é um anticristo: parece-se, realmente, com o Cristo; seu culto evoca piedade, sua imagem comove e inspira; mas é um demônio.

Esse é, então, o problema revelado no caso da cruz de Espinal: é que o Diabo imiscuiu-se no progressismo evangélico, convencendo-o de imanentizar e temporalizar a fé Cristã por meio de mediações socioanalíticas apóstatas e, sem seguida, adorar um outro Cristo, crucificado numa outra cruz, como se fosse o Cristo de Deus.

O QUE O PROGRESSISMO EVANGÉLICO PRECISA FAZER

O que pensei ao iniciar este parágrafo foi o mesmo que a maior parte dos leitores: quem sou eu para dizer o que o progressismo evangélico precisa fazer? Não sou ninguém. Mas vou dizer assim mesmo. Se vocês se consideram como Davi, e não me acham nem um pouco parecido com Natã, tomem-me como um Simei, e me ouçam, por favor:

Não proponho que os irmãos abandonem teses de economia política, por exemplo; se tornem de direita, que abracem as teses de Hayek e de Von Mises, ou que se tornem ouvintes de Olavo de Carvalho. Não proponho que abracem a tese do estado mínimo, ou que votem no PSDB. Alguns poderiam pensar que essa é a minha agenda oculta: pois saibam que não é nada disso. Para escândalo de todos, como já confessei antes, tenho, por exemplo, simpatias por Keynes. Não é disso que estou falando: trocar um ídolo por outro. O que proponho é que se obedeça à voz apostólica:

O vosso orgulho não é bom. Não sabeis que um pouco de fermento faz com que toda a massa fique fermentada? Removei o fermento velho, para que sejais massa nova sem fermento, assim como, de fato, sois. Porque Cristo, nosso cordeiro da Páscoa, já foi sacrificado. Portanto, celebremos a festa, não com fermento velho, nem com fermento da maldade e da corrupção, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade.

Já vos escrevi por carta que não vos associásseis com os imorais. Não me referia aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, ladrões ou idólatras. Nesse caso, seria necessário que saísseis do mundo. Mas agora vos escrevo que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for imoral ou ganancioso, idólatra ou caluniador, bêbado ou ladrão. Com esse homem não deveis nem sequer comer.

Pois, que me importa julgar os que são de fora? Não julgais vós os que são de dentro? Mas Deus julga os que são de fora. Expulsai esse imoral do vosso meio. (1Coríntios 5.6-13)
Esta é, portanto, a minha advertência aos irmãos da “velha guarda” da Missão Integral, que me perguntam “de que lado você está, Guilherme?”, e que se confessam, ao mesmo tempo, horrorizados com os descaminhos da teologia evangélica latino-americana e de movimentos Cristãos ambíguos do ponto de vista da identidade católica e evangélica. Esta é a minha advertência: disciplinem suas fileiras. Disciplinem espiritualmente e confessionalmente o seu movimento. Cortem na sua própria carne. Provem que vocês amam mais a verdade do que a sobrevivência política e do que os abraços de sua juventude colonizada pela USP, pela UFRJ ou pela UNICAMP. Parem de desviar atenção de seus pecados para os pecados da direita evangélica – a hora dela também chegará, mas não cabe a vocês ocupar-se disso – ou o seu movimento estará morto e enterrado espiritualmente em menos de uma geração.

E, por sua culpa, a massa do movimento evangélico será alienada da Missão Integral – por sua culpa! – e engolida por homens como Silas Malafaia. Por sua culpa! Porque vocês foram pusilânimes teologicamente; porque acobertaram a idolatria ideológica de seus jovens, como Davi acobertou os pecados de Absalão, e como Eli acobertou os pecados de seus filhos ímpios. E vocês não serão conhecidos como a igreja que se tornou integral, mas como a igreja que morreu entalada com o camelo da ideologia de esquerda.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

assista na ordem

 https://www.youtube.com/watch?v=flSbc33skHU


https://www.youtube.com/watch?v=lTOyzTy5nns


https://www.youtube.com/watch?v=9M0VJi6tfaA

terça-feira, 30 de junho de 2015

Pai, perdoa-lhes - Paulo Cilas


Comento, embora atrasado, sobre os acontecimentos na chamada "parada gay" em que uma trans ou um trans( não sei como definir) aparece como "cristo" crucificado e outros dois, igualmente caracterizados, se beijando. E, ainda, um outro fazendo "mal uso" de um crucifixo.
Vencendo no primeiro momento a repulsa que facilmente escorregaria para ódio - embora negaria veementemente que assim fosse- e analisando a reação cristã(?) de muitos fui ao único que poderia me dar a palavra final sobre o caso.

 E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes.
E o povo estava olhando. E também os príncipes zombavam dele, dizendo: Aos outros salvou, salve-se a si mesmo, se este é o Cristo, o escolhido de Deus.
E também os soldados o escarneciam, chegando-se a ele, e apresentando-lhe vinagre.
E dizendo: Se tu és o Rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo.
E também por cima dele, estava um título, escrito em letras gregas, romanas, e hebraicas: ESTE É O REI DOS JUDEUS.
E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós. 
Lucas 23:34-39.

Então, os soldados do governador levaram Jesus ao Pretório e reuniram toda a tropa ao seu redor.Tiraram-lhe as vestes e puseram nele um manto vermelho; fizeram uma coroa de espinhos e a colocaram em sua cabeça. Puseram uma vara em sua mão direita e, ajoelhando-se diante dele, zombavam: "Salve, rei dos judeus!"Cuspiram nele e, tirando-lhe a vara, batiam-lhe com ela na cabeça.Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto e vestiram-lhe suas próprias roupas. Então o levaram para crucificá-lo. Mt.27:27-31

Sendo Ele mesmo ultrajado - não um símbolo ou alguém travestido - optou pela misericórdia e pelo perdão. E eu pergunto: O Evangelho mudou? Existe um Evangelho para aquele momento e outro para este momento? Se a resposta é O Evangelho não mudou, então precisamos estar com a atitude do Autor do Evangelho e não de "seus representantes".

E mais, não somos chamados para sermos advogados e muito menos promotores e juízes de Cristo e, sim, suas testemunhas. E por mais que a atitude e os argumentos mundanos sejam permeados de desfaçatez, depravações e outras coisas desprezíveis não podemos nos desconectar da Fonte de Luz porque senão seremos trevas igualmente. Alias, quem estar em atitude pior? O que, possivelmente, não sabe o faz em sua representação grotesca ou os defensores do evangelho, pregadores e parlamentares, que enriquecem em vendetas públicas, comercializando bençãos, bíblias ungidas e etc. Bem, que ambos os lados não saibam o que estão fazendo e recebam a oração piedosa de Jesus.
As questões morais, ou moralistas, historicamente levaram a igreja a cometer erros crassos com perseguições injustas e hipócritas coando mosquitos e engolindo camelos.

…Por isso, Eu vos declaro que o Reino de Deus será retirado de vós para ser entregue a um povo que produza frutos dignos do Reino.Todo aquele que cair sobre esta pedra se arrebentará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó!” Depois que os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas que Jesus lhes havia contado, compreenderam que era sobre eles próprios que Jesus estava falando. …Mateus 21:43-45

Deixemos o juízo para O Reto Juiz. À nós nos cabe repercutir as palavras daquele que tomou juízo sobre si mesmo: "Pai, perdoa-lhes"!


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A simplicidade do evangelho e a sofisticação da Igreja - Ricardo Barbosa



O evangelho de Jesus Cristo é simples. Simples na forma e simples no conteúdo. A vida e o ministério de Jesus acontecem num cenário simples. Ele anunciou as boas novas do reino de Deus, demonstrou a presença do reino através de palavras, exemplos e ações. Convidou pessoas para estarem e aprenderem com ele. Sofreu as incompreensões do sistema religioso e político do seu tempo. Morreu e ressuscitou. Após a ressurreição, encontrou-se com seus discípulos e comunicou-lhes que recebera toda autoridade no céu e na terra, e que, como Rei e Senhor, enviou seus discípulos para anunciarem as boas novas, levando homens e mulheres a guardarem tudo o que ele ensinou, integrando-os numa comunidade trinitária por meio do batismo, e prometeu estar com eles todos os dias, até o fim.

Alguns dias depois, no meio da festa de Pentecostes, 120 discípulos estavam reunidos em Jerusalém, e a promessa de Jesus se cumpriu. Todos foram cheios do Espírito Santo, começaram a viver a nova realidade anunciada por Jesus, saíram alegremente, por todo canto, pregando a boa notícia de que Deus visitou seu povo e trouxe salvação, justiça e liberdade.

A história seguiu e os cristãos foram se multiplicando, organizando igrejas, criando instituições, formas e ritos. Porém, as instituições cresceram e suas estruturas se tornaram mais complexas e sofisticadas. Transformaram-se num fim em si mesma. A simplicidade do evangelho foi substituída pela complexidade institucional.

C. S. Lewis, na carta 17 do livro “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, aborda o tema da glutonaria e afirma que uma das grandes realizações do maligno no último século foi retirar da consciência dos homens qualquer preocupação sobre o assunto, e isso aconteceu quando ele transformou a “gula do excesso na gula da delicadeza”. Para C. S. Lewis, o problema da gula, muitas vezes, não está no excesso de comida, mas na sofisticação, na exigência de detalhes em relação ao vinho, ao ponto do filé ou ao cozimento da massa. Fica impossível atender a um paladar tão sofisticado. A simplicidade do ato de comer dá lugar à sofisticação gastronômica. Pessoas assim, segundo o autor inglês, demitem cozinheiras, destratam garçons, abandonam restaurantes, cultivam relacionamentos falsos e terminam a vida numa solidão amarga.

Como igreja, corremos o mesmo risco. A simplicidade e pureza do evangelho já não provocam prazer na maioria dos cristãos ocidentais. A sofisticação da igreja, sim. É o vaso tornando-se mais valioso que o tesouro contido nele. Se a música não estiver no volume perfeito, o ar condicionado no ponto exato, a pregação no tempo apropriado, com conteúdo que agrade a todos os paladares e com o bom uso dos aparatos tecnológicos, talvez eu não me agrade desta igreja.

Justificamos a sofisticação com expressões como “busca por excelência”, “relevância”, “qualidade”. Parece justo. O problema é que a excelência ou a relevância do evangelho está exatamente na sua simplicidade. É cada vez mais fácil encontrar cristãos que acharam a “igreja certa” do que os que simplesmente encontraram o evangelho. A sofisticação da igreja mantém o cristão num estado de espiritualidade falsa e superficial. A maior deficiência do cristianismo não está na forma, mas no conteúdo.

A verdadeira experiência espiritual requer um coração aquecido e não sentidos aguçados. Precisamos elevar nossos afetos por Cristo, seu reino, sua Palavra e seu povo, e não os níveis de sofisticação e exigências institucionais. O vaso deve ser de barro, sempre. O tesouro que ele  guarda, o evangelho simples de Jesus Cristo, é que tem grande valor. A sofisticação produz queixas, impaciência, falta de caridade e egoísmo. A simplicidade sempre nos conduz a compaixão, sinceridade, devoção e auto-doação.

• Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de “Janelas para a Vida” e “O Caminho do Coração”.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O que esquecemos sobre o perdão - Leslie Leyland Fields


Como um pai distante e hostil me ensinou o mais profundo significado da misericórdia.


O que esquecemos sobre o perdão
Fazia dez anos que eu não via meu pai. Eu não tinha fotos dele comigo; apenas uma vaga lembrança do seu rosto, fruto de nosso último encontro. Quando eu e meu marido paramos o carro em frente ao prédio em que morava, numa cidadezinha da Flórida, vi um homem de pele escura, quase careca. Era ele. Estava exatamente como eu me lembrava, embora uns 20 quilos mais gordo que da última vez em que o vi. “Como vou encenar isso?”, pensei. “Filha amorosa cumprimentando o pai sumido? Boa filha trazendo seus filhos para conhecerem o avô? Ou apenas uma filha ferida pela distância de seu pai?”
Saí devagar, prendendo a respiração. Meus filhos me seguiram, um atrás do outro. Meu pai continuou parado, como se não os estivesse vendo. Aqueles meninos eram irrelevantes para ele: nada sabia sobre eles e nunca os tinha visto, nem em fotos. Abracei de leve aquele homem estranho. “Como vai?”, ele perguntou, exibindo os dentes remanescentes. “Bem”, respondi. Nós tínhamos levado dois dias para chegar lá, desde Kodiak, no Alasca. Eram as férias de 2006 e queríamos vê-lo, quem sabe pela última vez. Aquela poderia ser a única oportunidade de meus filhos conhecerem o avô, já com 84 anos. Sugeri que saíssemos para tomar sorvete, pois sabia que ele gostava. Na sorveteria, ficamos sem assunto para conversar, observando o tráfego. Pouco antes de sairmos, pedi a meu marido que tirasse uma foto. Meu pai sentou-se e fiquei atrás, com os lábios tensos, contendo todo o vazio e a raiva que eu podia suportar. “Como posso perdoá-lo por todos os anos passados e até mesmo por este momento?”, eu me perguntava. Decidi que não voltaria para vê-lo de novo, não importava o que acontecesse.
Cinco anos depois, recebi um telefonema da minha irmã. Meu pai sofrera o que parecia ser um derrame e estava internado. Fiquei surpresa com a notícia, e mais surpresa ainda por saber que ela falava com ele, ultimamente, toda semana. Era o quarto dela que ele visitava à noite, quando estava em casa, enquanto nós, os cinco outros filhos, dormíamos. Só soubemos disso décadas depois. E esse não era o único mal que meu pai fazia a nós. Ele não conseguia ou não queria manter um emprego, o que nos levou a uma infância de muita pobreza. Quando eu tinha treze anos e minha mãe estava estudando para conseguir algum trabalho, meu pai pegou o pouco dinheiro que ainda tínhamos e foi-se embora em seu carro, pretendendo nunca mais voltar. Infelizmente, semanas depois, voltou. Anos mais tarde, quando finalmente juntou algum dinheiro, ele se mudou definitivamente para a Flórida, indo viver em um veleiro antigo.
“Por que você está fazendo isso?”, perguntei à minha irmã. “Eu o perdoei, Leslie”. Então, desliguei o telefone, sentindo todo o quarto rodar. Perdão sempre foi uma palavra por demais conhecida pelos cristãos, presente até na oração que Jesus nos ensinou. E o que dizer do mandamento que prescreve: “Honra teu pai e tua mãe”? Eu havia construído grande parte da minha vida com base nessa premissa. Só que não precisei procurar muito para encontrar outras pessoas lutando para perdoar um pai ou uma mãe, um padrasto, uma mãe adotiva, um avô – o tipo de pessoas que deveriam nos amar e cuidar de nós mas que, por muitas razões, não fizeram isso. É uma história antiga, que remonta aos tempos de Adão, Eva, Caim e Abel: pecadores criando pecadores. A iniquidade dos pais alcança os filhos até a terceira e quarta gerações, conforme as Escrituras.
As famílias estão desmoronando. Quase a metade dos filhos primogênitos que nascem nos Estados Unidos são, atualmente, de mães solteiras, e cerca de uma entre cinco crianças são criadas abaixo da linha de pobreza – e isso no Primeiro Mundo, que dirá da maior parte do planeta. Quarenta por cento dos primeiros casamentos não dão certo, fazendo as crianças passarem por crises e enfrentarem perdas em idades que não conseguem entendê-las. Jill Hubbard, psicóloga clínica do New Life Ministries (Ministérios Nova Vida) em Santa Monica, Califórnia, vê as consequências dos problemas familiares de maneira próxima e pessoal. “Pelo menos metade das pessoas que recebo toda semana está lutando, em algum nível, com a falta de perdão, especialmente em relação aos pais”, diz.
Libertação
Depois de seguir a difícil jornada para perdoar o meu pai, estou convencida de que todos devemos andar nesse mesmo caminho, se quisermos ser boas testemunhas do Senhor e fazer com que a igreja seja um refúgio em meio a uma sociedade ferida. E não só isso – variados estudos nos campos da medicina, da saúde mental e das ciências sociais afirmam o extraordinário poder do perdão na redução da pressão arterial, do estresse e da depressão. Perdoar também aumenta sentimentos como a compaixão e o otimismo, mesmo para os indivíduos mais traumatizados.
A mensagem do perdão tem se tornado cada vez mais difundida. Autores às centenas têm dito que perdoar é uma escolha, essencial para o nosso bem. O modelo de “perdão terapêutico” entrou no linguajar público como uma espécie de cura milagrosa e auto-administrada. “Eu perdoo por mim mesmo” é a máxima que tipifica a compreensão dominante acerca do perdão. O autor afirma: “Não se trata de perdoar pelo bem da outra pessoa. Trata-se de perdoar pelo seu próprio bem, para que você se liberte e siga em frente”. Mas os teólogos cristãos desempenham um papel importante na elaboração da mensagem terapêutica do perdão. Lewis B.Smedes, especialista em ética já falecido, foi um dos primeiros a lançar o perdão como um presente para nós mesmos: “Perdoar é libertar um prisioneiro e descobrir que esse prisioneiro era você”. Essa citação é tão usada que assumiu uma força de verdade do Evangelho.
Todas essas declarações, tanto de dentro quanto de fora da igreja, demonstram que não perdemos o conceito de perdão como bem moral. Mas temos limitado o bem para apenas nós mesmos, e é preocupante que o abandono de fundamento bíblico mais profundo do ato de perdoar tenha destruído o seu poder total e objetivo. Precisamos retornar aos mandamentos do Novo Testamento para perdoarmos como fomos perdoados. Isso resgata todo o projeto de perdão de suas piores formas de superioridade e egoísmo. Jesus usa a parábola do servo impiedoso para ilustrar a nossa verdadeira condição e necessidade. O perdão é para proporcionar liberdade e restauração a todos, especialmente àqueles que falharam conosco. Ele deve trazer a misericórdia de Deus entre nós, frágeis seres humanos, à espera da redenção em um mundo perdido.
Essa resposta correta ao perdão de Deus é tão séria e essencial para a vida cristã que Jesus adverte os discípulos, depois de ensinar a oração do Pai Nosso:
“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós;
Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mateus 6.14-15). O perdão de Deus não depende do nosso perdão a outras pessoas, e sua salvação não está vinculada a nenhuma ação de nossa parte. Ainda assim, é claro que ele requer que pessoas perdoadas também liberem perdão.
Bálsamo da misericórdia
Acreditar em tudo isso não fez com que perdoar meu pai fosse tarefa fácil ou imediata, é claro. Depois daquele telefonema de minha irmã, fiz várias viagens à Flórida durante um ano e meio. Na primeira, fui com as palavras do profeta Miquéias na cabeça: “Que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus?”. Eu fui desejando amar a misericórdia, mas meu pai e eu entramos em confronto. Ele proclamou seu ateísmo, e eu fiquei na defensiva. Lembrei-me de todos os motivos pelos quais nunca gostei dele – e, em cada gesto de bondade que eu demonstrava a ele, mais me lamentava por nunca ter recebido dele nada do gênero. Porém, comecei a ver aquele homem velho e alquebrado de modo mais completo. Eu percebi a sua ansiedade quando eu aparecia toda manhã para visitá-lo – e ele até me ligou no meu aniversário. Certa vez, pus a mão em seu ombro. Ao sentir-se tocado com compaixão, ele chorou e eu o acompanhei; choramos juntos por sua longa e triste vida, lamentando tudo que nos separara.
Lentamente, pude reconhecer a sua doença mental, que estava na raiz de sua incapacidade de amar os outros. E percebi que eu não era a única ferida; ele se sentia da mesma maneira. Com todas essas conclusões, o meu coração, apesar de magoado, foi também curado. Entre as visitas, eu ligava e mandava cartas, presentes e livros. Finalmente, estava amando o meu pai. Eu estava amando a misericórdia, esquecendo o seu egoísmo e os seus crimes e deixando tudo nas mãos de Deus. As coisas, no entanto, não terminaram como eu esperava. Meu pai nunca manifestou interesse ou amor por mim. Ele não reconheceu seus erros, tampouco enxergou em meus gestos uma oportunidade para abrir seu coração para Deus. Quando entrou em coma, minha irmã segurou o telefone em sua orelha e eu lhe falei palavras de amor e perdão, mas, àquela altura, ele já não podia responder. Quando meu pai morreu, apenas dois anos depois do meu retorno à sua vida, chorei por dias seguidos.
Mas esse acontecimento final não é o verdadeiro fim da história. O fim veio antes, quando eu e meus quatro irmãos nos reunimos no pequeno quarto do meu pai. Ele estava vestindo uma camisa bege com listras verdes e um short cáqui que minha irmã e eu havíamos comprado. Eu olhei, maravilhada, ao redor do quarto. Fazia 16 anos que todos nós não nos reuníamos. Naquele momento, nossa família estava reconstituída ao redor daquele que havia nos separado, tantos anos atrás. Eu lembrei da história de José, do Antigo Testamento, na sala de jantar com todos os seus irmãos, presenciando a reconstituição da sua própria família. Era o mesmo conosco. Nosso pai havia magoado cada um de nós, mas decidimos a mesma coisa: não iríamos pagar na mesma moeda. Nós estávamos ali para abençoar, para honrar. Nossa presença não pretendia silenciar o passado, mas recuperá-lo. Encontramo-nos novamente para nos transformar em pessoas que perdoam. Meu pai parecia confuso, mas eu o vi lacrimejar de emoção. Em outra ocasião, ele reconheceu, com palavras gaguejantes, que não era digno de nossa atenção. Quando a hora chegou, ele não morreu sozinho: dois de seus filhos estavam ao seu lado.
Podemos começar a jornada do perdão para aliviar nossos próprios fardos. Mas, ao longo do caminho, descobrimos uma oportunidade de viver a plenitude do Evangelho, amando a quem não merece e perdoando setenta vezes sete vezes. Ao fazer isso, refletimos o Reino de Deus entre nós. Eu poderia, facilmente, ter perdido essa oportunidade. Poderia não ter ouvido aquele que, morrendo numa cruz horrenda, em meio a dores lancinantes, orou por seus algozes: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Somos chamados a fazer o mesmo. Não seremos capazes de consertar toda a família humana, e nem de perdoar de modo tão perfeito e completo quanto Jesus – mas somos chamados a tentar, por obediência e amor ao Pai que nos perdoou.  Comecemos pelas nossas próprias famílias, trazendo para nossos lares destruídos o bálsamo da misericórdia infinita de Cristo. A partir daí, quem sabe aonde o perdão nos levará?

Sexualidade e redenção - Ricardo Barbosa de Sousa

Em relação aos papéis do homem e da mulher, é fundamental retomar o propósito de Deus.


Sexualidade e redenção
O amor pode ser pecaminoso? O ensino bíblico e a tradição cristã afirmam que sim. O apóstolo Paulo diz, por exemplo, que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (I Timóteo 6.10). Outro apóstolo, João, em sua primeira carta, também aconselha: “Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo”. Segundo a Palavra de Deus, portanto, existem, sim, formas de inverter ou perverter o amor. E esse amor pecaminoso não se dirige, apenas, a coisas materiais. A certa altura de seu ministério terreno, Jesus afirma: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10.37). É claro que devemos amar nossos pais. O quarto mandamento do decálogo nos manda honrar pai e mãe. No entanto, quando esse amor tem precedência sobre o amor a Deus, ele coloca em risco a ordem dos nossos afetos – e o objeto do nosso amor, facilmente, se transforma em ídolo.
Fomos criados por Deus para amar e ser amados. Essa é a condição básica do ser humano. Deus é amor, e não poderia nos criar de outra forma. No entanto, este propósito do Criador é corrompido sempre que nos afastamos dele e viramos as costas à sua vontade. Sempre que amamos alguma coisa ou mesmo alguém mais do que a Deus, o amor corre o risco de tornar-se pecaminoso.
O propósito do Criador para o ser humano, particularmente em relação à sua sexualidade, foi desenhado na criação. É nisso que os cristãos creem. A Bíblia começa com a afirmação de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Esta é, aliás, a declaração mais surpreendente de toda a narrativa da criação: o Deus Criador cria o ser humano à sua imagem. No mundo antigo, as imagens representavam a presença daquele que estava ausente, fosse ele um rei cujo trono e palácio encontravam-se distantes, ou um deus cujo templo e altar ficavam longe. Porém, o Deus revelado na Bíblia escolhe o ser humano como representação de sua presença no mundo. Na revelação bíblica da criação, existe um vínculo entre o humano e o divino. Todavia, a imagem de Deus no ser humano não se expressa no indivíduo solitário, encapsulado em si mesmo, mas é representada no homem e na mulher. A criatura divina é o ser humano sempre em relacionamento. O propósito da criação é, portanto, a comunhão entre o homem e a mulher; e, nesse relacionamento, a identidade humana é afirmada. O casamento – a aliança de amor entre um homem e uma mulher –, determina o fundamento da comunidade humana, e define a sentença básica da sexualidade estabelecida pelo Criador.
Em uma cultura confusa em relação aos papéis do homem e da mulher, é fundamental retomar o propósito da criação para construir uma compreensão da sexualidade humana como forma de expressar, primariamente, a natureza divina – e não o desejo humano por prazer ou satisfação pessoal. A forma como honramos e dignificamos nossa identidade sexual requer a aceitação plena e incondicional de quem somos diante do Criador, como homens e mulheres, construindo relacionamentos expressivos dessa condição.
Existe, hoje, muita crítica ao Cristianismo nesse aspecto. Movimentos, instituições ou, simplesmente, indivíduos criticam e, algumas vezes, atacam a fé cristã por considerá-la uma religião restritiva da prática sexual. É preciso deixar claro que o Cristianismo restringe, sim, a prática sexual; porém, em nenhum momento a nega. Muito pelo contrário: ele a afirma. Em seu livro Cristianismo puro e simples, o escritor irlandês C.S. Lewis diz o seguinte: “O Cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo – que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus tomou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no Paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O Cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os grandes poemas de amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o Cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente.”
Por outro lado, o Cristianismo também reconhece que o ser humano não pode se entregar cegamente aos seus instintos e desejos, e por essa razão ele estabelece limites e fronteiras para a prática sexual. Esses limites são necessários para ordenar os afetos humanos e disciplinar os desejos. A revista Ultimato, em sua edição número 352, traz como matéria de capa o seguinte tema: “A descoberta da compulsão”. Num dos artigos, a publicação faz referência a alguns escritores e psicanalistas que reconhecem os riscos dos desejos descontrolados. Uma das citadas é a psicanalista Maria Rita Kehl, que aconselha: “É melhor admitirmos, humildemente, o mal que nos habita. É a chance de aprendermos a lidar com ele. Pois parece que, quanto mais ignoramos a violência do desejo, mais somos vitimas de suas manifestações”. Ela cita também o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, que afirma: “Somos seres do desejo e não da razão. Com isso, não quero dizer que não sejamos racionais, mas sim que o desejo se impõe à razão […]. Devoramos tudo à nossa volta por conta dessa força irracional chamada desejo.”
Na sociedade humana, todos reconhecem que limites são necessários, em qualquer atividade ou comportamento. A questão é: quem os define e quais seriam eles?  Qualquer grupo social ou indivíduo, independentemente de credo ou formação, define seus limites a partir de algum pressuposto. Os cristãos creem na Bíblia como palavra inspirada por Deus e sua regra de fé e prática. Ao apresentar os limites, o Cristianismo cria um espaço seguro, não só para a pessoa, mas também para toda a sociedade humana, a fim de que o ser humano possa desenvolver seus afetos e amadurecer seus relacionamentos.
O argumento do amor busca sustentar e legitimar toda e qualquer forma de relacionamento, inclusive as relações sexuais que acontecem fora dos propósitos da criação, bastando para isso dizer que aquelas pessoas se amam. Por exemplo, muitos perguntam: pessoas do mesmo sexo não podem se amar? O Cristianismo responderia dizendo que sim; que não só podem, como devem. O problema é que usam a expressão “amar” como sinônimo de sexo. Amor e sexo não são a mesma coisa. Deus jamais proibiu alguém, quem quer que seja, de amar. Muito pelo contrário. No entanto, o ato sexual tem limites impostos pelo próprio Senhor. Desde o início, o testemunho bíblico se opôs deliberadamente às pretensões de seu ambiente cultural, afirmando que, na criação, Deus designou o homem e a mulher para uma identidade específica nos termos de uma aliança.
FRONTEIRAS MORAIS
Essas fronteiras são, hoje, fortemente criticadas e refutadas, muitas vezes, de maneira hostil, tanto pela cultura quanto pela mídia, que buscam criar uma sociedade sem princípios morais. O salmista levanta uma pergunta crucial para nós, hoje: “Destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” Sem fundamentos, a justiça se perde, rapidamente. Uma sociedade sem fundamentos morais caminha, inexoravelmente, para o caos – um cenário de violência cada vez mais comum – ou para algum regime totalitário, que pratica a rejeição ou que rejeita qualquer opinião que não seja aquela defendida por alguns movimentos e grupos organizados.
Somos, hoje, uma sociedade sem fronteiras morais. Somos uma sociedade que sabe fazer sexo, mas que encontra dificuldade para amar. Buscamos satisfazer nossos desejos e impulsos, mas resistimos a construir relações fiéis e duradouras. Nenhuma sociedade, seja ela cristã ou não, consegue sobreviver sem limites ou fronteiras morais. Para o Cristianismo, não podemos falar da sexualidade humana sem levar em conta a realidade do pecado. Deus nos criou para nos relacionarmos com outros, para amar e sermos amados; existimos para cuidar, nutrir e expressar afetos na amizade e comunhão. Deus também nos criou como seres sexuados, diferentes, o que nos torna capazes para o ato sexual como expressão única, entre o homem e a mulher, numa relação estável e fiel, como símbolo da aliança que Deus estabelece com sua criação. Neste relacionamento único, participamos da criação procriando e construindo a comunidade humana. É neste modelo que encontramos a possibilidade do mistério do amor, da segurança humana, de confiança e o espaço para receber os filhos que virão, oferecendo-lhes o ambiente necessário para seu desenvolvimento integral.
Acontece que o pecado corrompeu esse projeto divino. Antes de prosseguir, vale uma pequena explicação sobre o significado do pecado. Não se trata de um conceito psicológico ou sociológico, mas teológico. Ele diz respeito a Deus e seus propósitos revelados nas Escrituras Sagradas. É comum ouvir pessoas que não creem em Deus nem na sua Palavra protestando contra o fato de os cristãos reconhecerem que um determinado comportamento é pecaminoso. Isso é um tanto estranho. Não faz sentido que alguém que não professa a fé cristã, cujos princípios e valores não são determinados por sua fé em Cristo e na sua Palavra, proteste contra os que assim acreditam. Pecado é uma realidade humana; ele envolve todos os seres humanos. No entanto, para aqueles que não creem e não reconhecem o Criador, muito menos a condição que a queda impôs ao ser humano, não faz sentido protestar contra aquilo em que não acreditam.
Os cristãos consideram que o pecado trouxe a alienação do ser humano para com o seu Criador. Ao virar-lhe as costas, o ser humano perde o princípio da ordem estabelecida por Deus, e se entrega aos seus instintos e paixões desordenados; e é aqui que o amor pode tornar-se pecaminoso. Quando a Bíblia reconhece como pecado toda prática sexual que acontece fora dos termos da aliança entre um homem e uma mulher, conforme designado por Deus na criação, é porque todas estas relações ferem o propósito do Criador para o ser humano, ao estabelecer a família como base da sociedade humana.
A vontade de Deus deve ser o guia de nossa identidade. A comunhão do casamento é o projeto divino para o ser humano como ser sexual. Este princípio não está limitado ao tempo nem à cultura, mas é fundamento essencial e critério fundamental para a compreensão da sexualidade. Este é o padrão que define a doutrina cristã a respeito do comportamento sexual.
PROPÓSITO DIVINO
Muitas pessoas argumentam que uma limitação sexual pode implicar em algum tipo de privação. Num certo sentido, isso é verdade. Aliás, ninguém vive sem limites ou algum tipo de privação. Jesus usa esse argumento no célebre Sermão do Monte. Ali, o Mestre afirma: “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno”. Ele usa esta imagem forte para falar do adultério. No entanto, a mesma ilustração pode ser usada para qualquer outra forma de expressão sexual fora da vontade divina. O propósito de Deus não é que o indivíduo fique entregue aos seus instintos e paixões, mas que seja submisso ao seu Criador, e assim experimente a plenitude dos seus afetos e a liberdade em Cristo.
Lewis afirma: “A regra cristã é clara: ‘Ou o casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou a abstinência total.’ Isso é tão difícil de aceitar, e tão contrário a nossos instintos, que das duas, uma: ou o Cristianismo está errado ou o nosso instinto sexual, tal como é hoje em dia, se encontra deturpado. E claro que, sendo cristão, penso que foi o instinto que se deturpou”. A desordem sexual sempre contribuiu para uma desordem afetiva. O domínio próprio – a disciplina espiritual mais rejeitada na cultura moderna – é fundamental para reorientar nossos afetos e balizar nossa sexualidade. Existe um vazio e um anseio na alma humana que só pode ser satisfeito em Cristo, e isso só será plenamente realizado na redenção final. Não existe plenitude absoluta sem redenção absoluta. Para enfrentar o pecado, precisamos reconhecer a necessidade de renunciar a ele, resistir à tentação e optar pelo Reino de Deus. Precisamos, também, reconhecer que fazemos parte de uma sociedade caída e integramos uma Igreja que também traz as marcas do pecado. Logo, não adianta esconder a realidade do pecado: ela precisa ser enfrentada, desmascarada e restaurada em Cristo com a mesma misericórdia com que o Filho de Deus nos assiste em nosso pecado.
Os cristãos creem num Deus Criador, que nos criou como seres sexuais e encontrou prazer em sua criação. Cremos em um Deus pessoal, numa ordem que ele estabeleceu. Cremos nos seus absolutos; cremos num Reino de vida e paz no qual reside o sentido da existência humana. Cremos que, se seguirmos o propósito de Deus para nossa sexualidade, encontraremos mais plenitude de vida e maior prazer.
Como cristãos, experimentamos a liberdade conquistada pelo perdão dos nossos pecados na reconciliação com Deus, conosco e com o próximo. A reconciliação abre a possibilidade para um novo começo, que a graça divina nos proporciona pelo poder do Espírito Santo. Somente por meio da graça de Deus e do poder do Espírito podemos ser fiéis em nossos relacionamentos, bem como enfrentar e resistir ao modelo imposto pela sociedade moderna, que nos oferece um tipo de prazer que nega a alegria que nasce de uma vida comprometida com o propósito do Criador.
A Igreja cristã tem um importante papel no chamado de Deus para a reconciliação de todas as coisas em Cristo, incluindo a sexualidade humana. Paulo afirma que, “se alguém está em Cristo, é nova criação” (II Coríntios 5.17). Ser cristão não torna ninguém melhor ou superior que os seus semelhantes; ser cristão significa que fomos libertos de um modelo cultural, com seus valores – ou antivalores, que aprisionam e oprimem –, e fomos atraídos por Cristo para uma nova vida e uma nova criação. Não temos, em nós mesmos, nenhuma alternativa melhor, mas cremos que Deus tem. Por isso, somos chamados à tarefa de promover a reconciliação. E semelhante tarefa não acontece numa arena hostil de rupturas e maniqueísmos, do tipo “nós versus eles”. Como disse Paulo, somos o que somos pela graça de Deus. Não existe mérito algum em nós. Não somos melhores que ninguém. Tudo que temos, e tudo o que podemos oferecer, é a graça redentora de Jesus Cristo.
A fé em Cristo nos oferece as bases para uma nova ética e moral focada no tipo de homem e mulher que Deus deseja que sejamos, e não em regras moralistas. O ser humano pretendido por Deus nos foi revelado em Jesus Cristo. Somente pela misericórdia de Deus é que podemos viver esta nova realidade e oferecermos nossos corpos “como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus,” que nos possibilita a experimentar a boa, perfeita e agradável vontade do Senhor.

Porque eu deveria querer ser um Cristão?






Qual a razão que eu deveria ter para que eu queira ser um Cristão?

Poderia dizer: Eu não quero dor. Não quero desconforto, agonia, pavor, solidão ...

Cristandade é Cristo Jesus, o Filho de Deus, eterno, que veio ao mundo para salvar pecadores merecedores de punição. Porque neglicenciaram Deus, se rebelaram contra Deus, ignoraram Deus, desprezaram Deus, recusaram Deus, se afastaram de Deus, minimizaram Deus.

Todo mundo fez isso. "Cristãos" ainda fazem isso e não-crentes também. Ninguém reconhece o valor que Deus realmente tem.

E Deus é infinitamente valoroso e infinitamente digno de nossa confiança e amor.

Portanto estamos todos sob justo julgamento e nós iremos ser sentenciados algum dia ao lago de fogo chamado como segunda morte.

Então a primeira razão para sermos Cristãos é a negativa: todas as coisas horríveis que estão por vir sobre nós se nós continuarmos a rebelião contra Deus. 
E essas coisas não virão sobre nós se nós confiarmos em Cristo que se ofereceu como uma saída.
 
Mas a maior razão para ser um Cristão é que eu quero Cristo não só para escapar do inferno e ter meus pecados perdoados. A razão mais importante é que eu quero ter satisfação infinita com Deus para todo o sempre."

Um consciência limpa? Sim.

Pecados perdoados? Sim.

Escapar do inferno? Sim.

Estar no céu? Sim.

Novo céu e nova terra? Sim.

Mas isso não é a última satisfação. A última satisfação é  estar com Jesus. Ver a glória infinita de Jesus.

Então, Porque você quer ser um Cristão?

É Porque você não quer a dor eterna. Você quer o prazer eterno.

Inferno é dor eterna  e estamos todos indo para lá se não crermos em Jesus.

E Deus é prazer eterno:

"Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente." (Salmos 16:11).

Então se você quer prazer pleno torne-se para Cristo ou permaneça em Cristo.

E isto é a renúncia da autoconfiança e o abraçar Jesus Cristo como Salvador e Senhor do Tesouro da sua vida.

E você terá infinito prazer na presença dEle eternamente.

Eu acho que essa é uma ótima razão para querer ser um Cristão.


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