terça-feira, 1 de abril de 2014

Uma teologia por trás da Teologia da Prosperidade

Uma "teologia terapêutica" que influencia muito mais cristãos do que imaginamos.

Uma teologia por trás da Teologia da Prosperidade
Rosalee  Velloso Ewell nasceu em São Paulo, foi professora de teologia em vários seminários do Brasil e dos Estados Unidos. Atualmente, é diretora executiva da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial e editora do Novo Testamento do Comentário Bíblico Contemporâneo Latino-Americano que será publicado em breve. Ela será um dos preletores da Consulta Teológica e Pastoral "Um Chamado à Humildade, à Integridade e à Simplicidade", promovida pelo Movimento Lausanne e a Aliança Evangélica Brasileira, de 3 a 5 de abril em Atibaia (SP).
Na breve entrevista a seguir, Rosalee falta sobre a teologia por trás da Teologia da Prosperidade: uma "teologia terapêutica" que influencia muito mais cristãos do que imaginamos.
Cara Rosalee, você poderia nos dizer, em poucas palavras, quem é você e destacar as áreas com as quais está mais envolvida?
Eu sou a Rosalee Velloso Ewell, nascida em São Paulo, filha de Ary e Carolina Velloso.Atualmente trabalho com a Aliança Evangélica Mundial, servindo como diretora executiva da Comissão Teológica da mesma. Já fui professora em seminários no Brasil e nos Estados Unidos e estou morando na Inglaterra enquanto meu marido completa seus estudos para o doutorado.
A Consulta vai falar sobre humildade, integridade e simplicidade. Isso poderia ser considerado uma resposta aos desafios que vieram com o crescimento da Teologia da Prosperidade, que está tão em voga em muitas de nossas igrejas hoje?
Sim, podemos analisar a teologia e os ensinamentos da prosperidade usando as lentes de "humildade, integridade e simplicidade", mas estes temas aplicam-se a todos nós. Isto é, eles são um desafio para cada cristão e para cada comunidade, não só porque questionam o próprio meio de vida no mundo contemporâneo, mas porque nos forçam a repensar como nossas vidas refletem ou não a ética de Cristo.
Você já teve que enfrentar as questões da Teologia da Prosperidade em seu ministério?
Sim, mas talvez não no sentido de estar de frente com um pastor ou líder famoso por sua teologia da prosperidade. O perigo que mais me preocupa é como esta teologia está disfarçada no meio evangélico e os danos que causa ao testemunho da igreja. Já vi muitas igrejas que no seu falar e pregar são contra a Teologia da Prosperidade, mas no seu modo de vida, no seu dia a dia, exibem um cristianismo "terapêutico", um Jesus que às vezes tem algo a dizer sobre coisas da família ou sobre a saúde, mas ignoramos o que ele diz sobre o dinheiro e as questões econômicas.
Como você vê o impacto da Teologia da Prosperidade na vida das igrejas e das pessoas em muitos países pobres, como vem acontecendo hoje?
Creio que esta teologia usa a pobreza de muitos para crescer e multiplicar-se, mas que não é um problema só de países pobres. Como já disse, a "teologia terapêutica" está em todos os lugares - ricos e pobres - e tem um impacto muito negativo no testemunho da igreja. Se os cristãos em lugares pobres aprendessem a viver de tal forma que mostrassem verdadeiramente as bençãos de Deus, se demonstrassem sinceramente o poder transformador de Cristo (inclusive na área financeira), acho que a teologia da prosperidade não sobreviveria. Mas como o testemunho de cristãos é tão fraco, as promessas e a esperança que a Teologia da Prosperidade oferece servem como um bálsamo, um remédio contra a pobreza e a tristeza.
Qual seria o seu apelo às igrejas jovens e que aumentam cada vez mais, como acontece aqui no Brasil?
Não caiam na armadilha da "teologia terapêutica", mas procurem oferecer uma esperança melhor, uma teologia melhor do que aquela oferecida pela Teologia da Prosperidade. Se cremos realmente que Jesus é Senhor, quais a implicações desta afirmação em termos de como vivemos em comunidade, como igreja, como pessoas que fazem parte de um só corpo?
Qual o legado de Lausanne 74?
Um dos principais legados do Congresso Lausanne 1974 foi ajudar a própria igreja a olhar para si mesma e fazer uma autocrítica, perguntando-se se estava realmente sendo fiel à Palavra de Deus e engajada na missão que o Senhor lhe havia deixado. Porém, talvez o legado mais marcante seja o fato de o Pacto de Lausanne ter estabelecido, de uma maneira clara e contundente, a importância do envolvimento do cristão com a sociedade que nos rodeia.

quarta-feira, 19 de março de 2014

“Não me alinho a bancadas evangélicas” - Carlos Alberto Bezerra Jr.

“Não me alinho a bancadas evangélicas”

Entrevista com o Deputado Carlos Alberto Bezerra Jr.

“Não me alinho a bancadas evangélicas”
Em setembro, um deputado brasileiro foi destaque na Organização das Nações Unidas, e por um motivo que nada tem a ver com corrupção ou envolvimento em irregularidades – tipo de atitudes normalmente associadas aos políticos no Brasil. O deputado estadual Carlos Alberto Bezerra Jr, do PSDB paulista, falou na reunião do Alto Comissariado dos Diretos Humanos da ONU, realizada em Genebra (Suíça), sobre um projeto de sua autoria que está dando o que falar. Aprovado na forma da Lei nº 14.946, o instrumento prevê a cassação do registro no Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, o ICMS, de toda empresa que se utilizar, ainda que indiretamente, de mão de obra submetida a regimes de trabalho que se assemelhem à escravidão. Na prática, a lei inviabiliza o funcionamento de grupos empresariais que praticam a exploração ilegal de trabalhadores. Embora a escravidão tenha sido oficialmente abolida no país há 125 anos, há muitas pessoas escravizadas ou semi-escravizadas no país, e não apenas nas longínquas zonas rurais. Só em São Paulo, o mais rico e desenvolvido Estado do país, 40 mil trabalhadores nessa condição foram resgatados na última década – tanto brasileiros como imigrantes ilegais oriundos de nações sul-americanas.
Vereador por dois mandatos na capital paulista, Bezerra foi para a Assembleia Legislativa de São Paulo em 2011. Relativamente curta, a carreira política tem se consolidado com ações a favor da saúde e dos direitos humanos, com uma boa avaliação de seus mandatos. Médico e pastor da Comunidade da Graça, em São Paulo, Bezerra sabe, no entanto, que a imagem do político, inclusive o evangélico, está desgastada no país. "Minha fé não é meu palanque; por isso, as diversas matérias que deram destaque à nova lei não entram nesse assunto", diz. Dizendo que nunca se alinhou às chamadas bancadas evangélicas – "Esses grupos nunca se notabilizaram por suas boas práticas ou significativas contribuições para o país", explica –,o deputado argumenta que falta à Igreja uma atuação cristã e política que seja profética e transformadora. "É por isso que a agenda gay acaba pautando a agenda evangélica no país."
CRISTIANISMO HOJE – Cerca de 40 mil trabalhadores foram resgatados de condições de escravidão ou semi-escravidão nos últimos dez anos, só no Estado de São Paulo. Qual é o real tamanho do problema, em escala nacional?
CARLOS ALBERTO BEZERRA JR – O problema é gravíssimo. Trabalho escravo não é coisa do passado. Existe, acontece e está perto de cada um de nós. No mundo todo, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que haja cerca de 27 milhões de escravos – e não apenas nas áreas rurais. Esse problema acontece também, e muito, nas zonas urbanas. No Estado de São Paulo, o trabalho escravo concentra-se especialmente nos setores da construção civil e da indústria têxtil. Hoje, a capital do Estado mais rico do país abriga mais de 10 mil oficinas de costura clandestinas, repletas de trabalhadores em condições de escravidão.
Quando o senhor começou a se envolver com isso?
Comecei a lutar contra essa violência absurda na metade de 2011, quando estouraram as denúncias sobreescravidão na produção das roupas da grife Zara. Não tinha ideia de que aquele caso era uma gota num oceano de crimes dessa natureza. De lá pra cá, foram inúmeras batalhas, com novas denúncias contra grandes empresas e diversos novos casos de escravidão contemporânea. Passei a convocar os principais envolvidos em casos do tipo para dar explicações na Comissão Estadual de Direitos Humanos, da qual sou vice-presidente. Das longas sessões – das quais saíamos quase sempre mais revoltados do que havíamos entrado –, surgiu a ideia de criar um projeto de lei que invertesse a engrenagem que move o trabalho escravo de hoje. A lógica da proposta que nasceu dessa experiência é cortante: se o trabalho escravo não tem outro objetivo que não o lucro, então, para combatê-lo é preciso gerar prejuízo a quem o pratica.
Mexer com esses grupos não o assusta?
Desde quando apresentei a medida até sua transformação em lei, não houve uma calmaria sequer. Foram lutas e mais lutas. Cheguei ao ponto de ter minha família ameaçada por uma grande corporação prestes a perder as receitas que conseguia às custas do sangue de imigrantes andinos e brasileiros. Felizmente, demos o primeiro passo para que essa violência absurda, essa afronta o Criador, seja interrompida aqui em São Paulo.
No Brasil, empresários e poderosos, de um modo geral, costumam se blindar através do próprio poder econômico e de articulações corruptas com gestores públicos, legisladores e magistrados. Quais os instrumentos que poderão ser adotados para evitar que, com manobras jurídicas, os acusados consigam se safar?
A gente não aguenta mais impunidade. As manifestações que ganharam as ruas recentemente foram também motivadas por esse sentimento. Cansamos de ver leis serem aplicadas só para quem pode menos. É por isso que a nova lei paulista contra o trabalho escravo é taxativa. Sua lógica é semelhante a da Lei da Ficha Limpa. Ou seja, sua aplicação é ágil e fácil de entender – basta uma condenação por órgão colegiado, ou seja, não há necessidade do trânsito em julgado.
O senhor acredita que, de alguma forma, a visibilidade de seu projeto tenha contribuído para uma visão mais justa da representação parlamentar evangélica, tão desgastada no país?
Minha fé não é meu palanque; por isso, as diversas matérias que deram destaque à nova lei não entram nesse assunto. Ser um político evangélico não significa sair por aí com bravatas, demagogia e proselitismo disfarçado de defesa da família. Isso, para mim, é oportunismo eleitoreiro. Rejeito o modelo de representação evangélica na política que se limita às questões de usos e costumes. O moralismo populista, na maioria das vezes, funciona como cortina de fumaça para esconder mandatos irrelevantes. Defendo que o cristão na política expresse sua fé por meio da postura ética, de uma agenda que priorize a defesa dos interesses e direitos dos mais pobres, com leis e projetos que combatam a injustiça e ponham limite à maldade, e tendo o respeito pela sacralidade da vida humana como valor.
E o senhor está esperançoso por efetivas mudanças no Brasil ou essa sucessão de protestos pelo país corre o risco de ser apenas um repique de indignação?
Estou muito animado com os protestos que vimos. Eu mesmo fui às ruas aqui em São Paulo para protestar contra uma Proposta de Emenda Constitucional estadual que queria impedir o Ministério Público de investigar políticos. Trabalhei também na Assembleia Legislativa contra esse projeto da impunidade. Junto com outros parlamentares, impedimos que fosse aprovado. Tenho esperanças de que as manifestações que marcaram especialmente o fim do primeiro semestre deste ano não acabem. O povo é um agente político fundamental – e os governantes pareciam ter se esquecido disso. Sou apaixonado por esse ativismo social e acredito muito nisso como motor de mudanças estruturais importantes. No que depender de mim, o "vem pra rua" vai continuar. Porém, penso que a maior prova do ativismo seja na urna. É lá na urna que serão guilhotinadas velhas raposas que não nos representam.
Muitos evangélicos são eleitos com bandeiras meramente corporativas, visando a agradar ao próprio segmento e até mesmo agindo como despachantes de igrejas. Qual a sua avaliação sobre a atuação dos crentes na política brasileira?
Nunca me alinhei a bancadas evangélicas, nem quando fui vereador, nem agora, como deputado. Isso porque esses grupos nunca se notabilizaram por suas boas práticas ou significativas contribuições para o país. Ao contrário; no mais das vezes, essas frentes politiqueiras se notabilizaram por escândalos e mais escândalos, e por transformar Deus em cabo eleitoral. Tudo isso faz com que a opinião pública se torne cada vez mais refratária à figura do evangélico na política, e contribui para reforçar uma visão caricata e estereotipada desse tipo de parlamentar – que, cá entre nós, não é exatamente injusta, a julgar pelo tanto de absurdos cometidos em nome de Deus em Casas legislativas de todo o país. Por tudo isso, desconfio daqueles que se autoproclamam defensores da Igreja. A Igreja já tem em Jesus seu único e suficiente defensor. Esse modelo que leva às cadeiras dos Legislativos de todo o país gente que não tem outro interesse que não o de proteger ou conceder privilégios à denominação que representa é uma clara privatização religiosa do espaço público. Vou acreditar em bancada evangélica quando significar a união de parlamentares em prol da agenda do Reino. Sou seguidor de Jesus e busco reafirmar minha fé em tudo o quanto faço no Parlamento paulista; porém, jamais me afirmarei representante desse ou daquele grupo.
Em 2002, o então candidato à Presidência Anthony Garotinho, com um discurso evangélico, obteve um surpreendente terceiro lugar na disputa, com quase 18% dos votos. Já em 2010, outra candidata evangélica, Marina Silva, conquistou votação tão expressiva que provocou um inesperado segundo turno. O que fazer com esse imenso patrimônio político?
Essa é mesmo a pergunta a ser feita. Nossas igrejas estão cheias; temos espaço na mídia, na política e no empresariado; há evangélicos artistas, os esportistas e outras personalidades. Porém, que diferença temos feito em cada uma dessas estruturas e quais resultado temos obtido a partir da soma de nossas esforços em todas elas juntas? Não se trata de lutar por um presidente evangélico, mas de ter uma atuação como Igreja, sensível ao choro dos que sofrem, pronta a libertar os oprimidos, tanto espiritual como socialmente. O Evangelho genuíno, quando experimentado e vivido, produz mudanças que não são superficiais: são estruturais. Precisamos nos lembrar que somos seguidores de um preso político, um homem que foi perseguido e morto pelo regime de sua época justamente por tê-lo contestado, por ter proposto uma alternativa concreta a tudo aquilo. Por agora, me parece que muitos gostam mesmo é de se autoproclamar evangélicos, mas sua falta de testemunho como seguidor de Jesus fala mais alto que as maiores bravatas. Por outro lado, imagine o impacto se apenas 1/3 da comunidade evangélica adotasse um novo tipo de engajamento sócio-político, com uma outra compreensão bíblica, não restrita ao moralismo, mas equilibrada e proposta com humildade. Uma agenda cristã conduzida com honestidade e humildade poderia diminuir a violência, erradicar a pobreza e a escravidão moderna, cuidar da Criação, fortalecer as famílias. Um engajamento cristão honesto, sábio, com uma agenda biblicamente equilibrada pode transformar o quadro atual do país e confrontar as mazelas sociais e espirituais do Brasil.
Ser filho de um pastor – Carlos Alberto Bezerra, fundador e líder da Comunidade da Graça – representou muitas cobranças no sentido de que o senhor também se tornasse um pastor?
Graças a Deus, meu pai sempre permitiu que fizéssemos nossas próprias escolhas. Ele cuidou para que tivéssemos os mesmos princípios e valores, mas nunca impôs que seguíssemos o mesmo caminho que ele – por essas e outras, aliás, ele segue sendo minha principal referência. Quando terminei os estudos, fui cursar faculdade de Medicina. Formei-me médico e passei a trabalhar em pronto-socorros da periferia paulistana. Larguei meu principal emprego para iniciar uma ONG e levar atendimento médico a quem jamais poderia pagar por isso. Meu chamado vem de lá. Daquilo que vi e ouvi de quem mais precisa. Minha vocação é de serviço. A função do pastorado veio como consequência dessa vivência e das experiências dela decorrentes – foi natural.
E seu ministério interfere de alguma forma na atuação política?
Nunca usei título. Costumo dizer que sou um discípulo de Jesus disfarçado de deputado. Estou na política a serviço dele, pelo tempo de serviço que ele quiser.
Além de seu pai, o senhor tem outros modelos na política e na vida cristã?
Gosto de dizer que, quando entro no plenário, não deixo minha fé do lado de fora. Então, prefiro exemplos que unam as duas coisas, ou seja: modelos de seguidores de Jesus na política. Há vários. Mas destacaria Desmond Tutu, arcebispo anglicano, que, junto com Nelson Mandela, lutou pelo fim do regime racista do apartheid. Martin Luther King – exemplo de liderança evangélica comprometida com seu país e com seu povo – é outro, assim como Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano que integrou a resistência alemã ao nazismo; E Willian Wilberforce, que teve coragem de lutar contra a escravidão na Inglaterra do século 18.Por aqui, há muitos outros, como, por exemplo, a Marina Silva, minha amiga pessoal. É impossível falar de minhas referências cristãs sem falar de John Stott, Robinson Cavalcanti, Ariovaldo Ramos, Brian MacLaren, Tony Campolo, René Padilla, Billy Graham, Jung Mo Sung e Ed René Kivitz, entre e tantos outros.
Nas igrejas brasileiras de perfil avivado, o sistema de sucessão é muitas vezes hereditário, com o comando passando de pai para filho ou de marido para mulher. Esse sistema não é uma distorção do princípio do chamado pessoal? Até que ponto vai a influência familiar e o puro nepotismo eclesiástico, sobretudo naquelas denominações que detêm grande patrimônio?
Não conheço proximamente as experiências desses líderes. Mas vejo muita liderança "hereditária" por aí. Tem muito absurdo sendo cometido na base da justificativa de que "Deus falou"ou "Deus revelou". Isso, sem dúvida, é prejudicial. Acredito que ministério exija vocação, chamado do Pai para sua obra. Não é título; é função, e precisa ser exercida por quem está disposto a servir, a ser o último, a ver seu caminho de vida mudar bruscamente, segundo a vontade de Deus, e não por quem só quer poder e privilégio. Agora, por outro lado, há muitos filhos que, a exemplo de seus pais, são vocacionados, e não devem ser vistos com preconceito. A filha de René Padilla, Ruth, dá sequência ao trabalho de seu pai como secretária-geral da Fraternidade Teológica Latino-americana sem, com isso, ser venal ou carreirista – pelo contrário.
A defesa dos direitos humanos e sociais não é uma bandeira usual da Igreja Evangélica. Por que os crentes brasileiros, vivendo em uma nação de Terceiro Mundo e com imensas – e visíveis – mazelas, demonstra tamanha miopia social?
Sou parte dessa Igreja – que tem erros, com certeza. Mas que tem acertos, também. Digo isso porque os problemas da Igreja são meus também. Não me omito nem me coloco à margem. Porém, o que percebo é uma desconexão entre esses que se pretendem "líderes" da igreja – muitos dos quais ocupando espaços de mídia e de poder – e os reais problemas das pessoas e do país. Há poucos meses, quando a população estava nas ruas, pedindo por justiça, um sem-número de evangélicos lotava um evento em Brasília para tratar de temas que nada tinham a ver com o clamor das ruas [N.da Redação: essa manifestação foi promovida em defesa da liberdade religiosa, da família tradicional – em oposição à chamada militância gay – e da vida, e teve como principal organizador o pastor Silas Malafaia]. É preocupante: igreja que se isola anda na contramão da sociedade. E igreja que não se mistura fala sozinha. Ao invés de cair na graça do povo, como em Atos 2, cai em desgraça. Sonho com o dia em que a atuação evangélica na política exceda o campo moral.
A Igreja tem errado o foco ao eleger a crítica ao movimento gay como tema prioritário?
A falta de uma agenda cristã política profética e transformadora faz com que a agenda gay paute a evangélica no país. Há uma pesquisa feita pelo Instituto Barma, dos Estados Unidos, que quis saber qual característica dos cristãos norte-americanos era mais facilmente percebida pelos não-cristãos daquele país. A resposta foi quase unânime: os evangélicos são anti-gays. No Brasil, vivemos algo semelhante. Está claro contra o quê os evangélicos são. Mas quando ficará claro aquilo de que somos a favor? É evidente que, nesse debate, tenho posição clara. Não abro mão dos meus valores. Sou um seguidor de Jesus e jamais aceitarei que meus princípios sejam menosprezados ou tratados com preconceito. Cabe a nós, como evangélicos, defender, sim, aquilo em que acreditamos, ter um compromisso inegociável com os princípios bíblicos. Porém, para mim, erramos ao estabelecer essa como a única questão. E quanto aos sem-teto? E quanto aos idosos? E quanto às questões de sustentabilidade ambiental e econômica? O que temos a dizer sobre isso? Qual é a nossa contribuição nesses temas? Vejo na Bíblia uma hierarquia temática diferente daquela que observo em nossa representação pública. A Bíblia não é um livro monotemático – aliás, não se encontra meia dúzia de versículos sobre homossexualidade. Por outro lado, há mais de dois mil sobre nosso dever para com o pobre, o órfão, a viúva, o sem-teto. É um mau sinal quando andamos na contramão da Palavra, não acha?


quinta-feira, 6 de março de 2014

VAMOS DAR UM BASTA NO REPETECO - LUIS A R BRANCO

Estou sempre recebendo por correio eletrônico ou correio convites para participar de eventos evangélicos. E também me deparo com os mesmos nas revistas evangélicas que recebo. Os eventos são os mais variados, desde sexualidade à plantação de igreja. O cardápio está até variado, o que não muda muito é o chefe, o cozinheiro. O que quero dizer é que são as mesmas figuras em praticamente todos os eventos a falarem dos mais variados temas. É uma repetição enjoativa, pois embora os temas sejam diferenciados, o tempero é sempre o mesmo. São as mesmas piadas, os mesmos jargões e as mesmas caras.

Assento-me para escrever este texto já com meu capacete de obras na cabeça, pronto para levar as pedradas, e certamente alguns dirão: “É inveja, por que ele não foi convidado é mera dor de cotovelo!” Antes fosse minha inveja, assim pelo menos o problema seria restrito a minha pessoa, e é mais fácil mudar o hábito de um do que de uma comunidade, e antes fosse, pois, devido a complicações de saúde, mesmo que me convidassem não teria como aceitar. E esta possibilidade é remota, sou um dos milhares de anónimos que andam por aí. Como digo em minha poesia: “Quem sou eu? Não me conheço, sou o que sou! Hora poeta, teólogo ou filósofo, mas na maioria das vezes sou aquele que passa e ninguém vê.” Confesso que me espanta e me cansa só de ver tais convites. E permita-me lhe explicar por que:

1. Fazemos parte de uma cultura idólatra. Seja qual for a religião no Brasil, a idolatria é exagerada. Desde o candomblé às igrejas evangélicas históricas o culto a imagens ou personalidades é impressionante. O país ficou chocado quando o “idolatrado” padre Fábio zangou-se com os exageros da idolatria mariana. E nas igrejas evangélicas, desde as neopentecostais às reformadas, o culto a personalidade é o mesmo, só muda o venue (local) e o cardápio, mas o espírito por trás destas personalidades é o mesmo.

2. Uma surpreendente versatilidade temática. Depois de quase vinte anos no ministério, já cheguei a conclusão de que alguns temas não são para mim, ou seja, não sou a pessoa indicada ou preparada para falar sobre determinados assuntos. Mas o que vemos no Brasil de hoje é uma surpreendente versatilidade nos pregadores, preletores ou como desejar chamá-los. São autoridades em tudo! O que não é verdade, nem pode ser, pois seria surpreendente se assim o fosse. Recebi ontem um Twitter de um pregador dizendo que iria falar sobre sexualidade num evento e nos mesmos dias sobre filosofia em outro, é possível? É, mas é surpreendente. Duas questões me veem a mente nesta hora: 1. o indivíduo é realmente versátil e bom em todas as áreas ou; 2. tem um serio problema em dizer não e reconhecer sua limitação.

Fui assistir a um evento destes, e o orador é renomado no meio evangélico, e fiquei impressionado com a quantidade de erros históricos nas afirmações deste querido irmão. Numa cultura onde pouco se lê, e de culto a personalidades, isto passa batido, mas num contexto mais refinado intelectualmente e menos protagonizador, é logo percebido. E um colega europeu, doutorado, levantou-se, olhou para mim, percebendo que eu já havia notado os erros, disse: “Gosto muito de ouvir este irmão, mas me surpreende os erros históricos.” Estimado pregador versátil, cuidado, pois podes pensar que estás abafando, enquanto na verdade está passando vergonha!

3. Falta de criatividade. Você já imaginou quantos seminaristas são formados todos os anos em nossos seminários? Já imaginou a quantidade de pastores que são consagrados todos os anos? Já imaginou a quantidade de membros de igreja altamente capazes para falar sobre determinados assuntos? Então, por que insistimos no repeteco? Na verdade, a repetição das figurinhas protagonizadores é uma pura demonstração de que os organizadores destes eventos pouco importam-se com o conteúdo, mas com a utilização de protagonistas capazes de atrair pessoas. Que bênção seria se fosse melhor utilizado todos os recursos que temos nas igrejas, que bênção maior ainda seria se nossos pregadores tivessem a coragem e decência de dizer: “Desculpe-me, mas não posso aceitar o convite, pois não entendo bem deste assunto, mas indico um irmão, ele não é conhecido, mas é perito nesta área.”

4. E para concluir, falta humildade. Estes dias removi o nome de um pregador da minha lista no Twitter, todo dia recebia mensagens dele dizendo onde daria a próxima palestra e qual seria o tema, apaguei, pois me incomodava a elasticidade teológica deste irmão, que tem até nome conhecido, mas a essência é rasa. São os mesmos jargões, as mesmas piadas, a mesma postura, só mudou o tema. Uma pobreza que chega doer! Nos esquecemos tão rapidamente de que quem quer ser bom em tudo, acaba não sendo bom em nada. Quem fala demais, peca demais também. Quem sabe boa parte da agenda destes preletores não poderia ser gasta em oração e no preparo de temas que os qualificassem como peritos naquela área. Como professor de hermenêutica há alguns anos, me dei conta de que nenhum pregador conseguirá pregar mais do que cinco mensagens por ano realmente bem preparadas, exaustivamente examinadas e provadas pelas regras da teologia, exegese, hermenêutica e homilética, levando-se em conta o tempo que se gasta na preparação e oração por uma mensagem, para além das demais atividades que temos, como cuidar do rebanho, da família, da saúde e da oração. Quando vejo que um pregador tem que atender a tantos convites quase que diariamente, fica claro para mim algumas coisas: Ele tem negligenciado a família, tem negligenciado a oração, tem negligenciado a saúde, tem negligenciado a simplicidade.

Que Deus nos ajude! Vou terminar aqui, pois talvez eu vá ouvir o mesmo irmão que ouvi mês passado, mas o congresso e o tema é diferente!

“É necessário que ele cresça e que eu diminua.” João 3:30



Luis Branco é colunista do Genizah

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DÍZIMOS E OFERTAS - PAULO CILAS


Melhor coisa é dá do que receber... Atos 20.35
Cada um contribua segundo propôs no seu coração... II Cor. 9.7


No AT em Malaquias 3.8 está escrito que se rouba de Deus em não entregar dízimos e ofertas. Por que o roubo? Naquele sistema, em que onze tribos de Israel tinham suas terras para produzir, a tribo de Levi ficaria à disposição do serviço religioso em todo território nacional. Ora, sendo assim, os dízimos sustentariam a tribo de Levi. Logo, sustentariam o Culto e todo cerimonial. Havendo sonegação estaria-se então sonegando o Culto. Daí Deus dizer: “Vocês me roubam”!
Usar tal argumento nos dias de hoje já não faz tanto sentido (a não ser for por aqueles que querem arrancar dinheiro de qualquer jeito em prol de seus próprios objetivos. Ainda que use o nome de Deus para os tais). O que o NV nos apresenta em Cristo é a “liberalidade”, é o dar sem fazer conta de tostões, é o coração generoso, participativo e coerente que entende que ofertar e dizimar tornam-se privilégio e não obrigação.
Antes, ainda que contrariado, tinha-se que cumprir o estabelecido. Agora, ninguém deve contribuir contrariado. Se o dizimo não for exercido com alegria, fé e fidelidade nenhum dinheiro fará sentido.
Quanto ao valor, o Ap. Paulo em um texto acima referido fala que parte do coração, o que você propuser. Os 10% (dizimo) são boa referência. Afinal, antes da existência da nação de Israel, Abraão já tinha entregado o dizimo a um homem chamado Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, que vem a ser uma figura do próprio Cristo e, que em Hebreus no cap. 7, o próprio Jesus é definido como sendo sacerdote segundo a ordem desse Melquisedeque.
Há também o fato de Deus não possui um serasa, spc que registram débitos que devem ser quitados. Não há divida em dinheiro com Deus! O que há e o que deve sempre haver são corações que amam e com alegria ofertam e dizimam. Então, não é pelo medo do devorador, pela ameaça sobre os que não ofertam e dizimam que nós assim o fazemos ou deveríamos fazer. E, sim, pelo grande privilegio de nos envolvermos em torno de algo em comum numa comunidade(igreja), em sustento de ministros e missionários bem como no socorro dos irmãos da fé em necessidade.
E Deus nada mais disse e nada mais acrescentou, mas, termino com a palavra de Jesus: "O homem bom do seu bom tesouro tira coisas boas".

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A influência judaica na igreja - Luis A R Branco




Uma das coisas que vem chamando minha atenção há algum tempo é a influência exagerada do judaísmo dentro de alguns segmentos evangélicos. Na verdade, a igreja brasileira sempre nutriu certa apreciação pela Terra Santa e pelo Povo Judeu. Mas o que vemos hoje em dia é uma importação exagerada dos costumes judeus para dentro da igreja, ferindo assim a orientação apostólica, o ensino dos pais da igreja e dos reformadores quanto ao assunto.

Nossa obrigação como apologetas cristãos é o de alertar a igreja quanto aos perigos por trás de determinadas práticas. John M. Frame diz que a apologética pode ser tratada no meio cristão de três formas distintas: 1. A apologética das evidências: É a apresentação racional da fé cristã, oferecendo bases credíveis para aquelas pessoas que têm dificuldade de crer no evangelho. 2. A apologética da defesa que oferece respostas em defesa do evangelho para aqueles que tentam deturpar a mensagem da verdade. 3. A apologética da ofensa, que é o ataque ou denúncia explicita daqueles que se utilizam do evangelho com objetivos escusos.[1]

Com base em nossa missão apologética devemos mostrar a irracionalidade, a deturpação e denunciar explicitamente as aberrações destes movimentos tidos judaizantes espalhados pelo Brasil. Devido ao espaço pequeno, seremos bastante resumidos em nossa apresentação, mas o suficientemente convincente para que você se afaste definitivamente destes grupos heréticos.

Em primeiro lugar, precisamos entender qual a missão de Israel e do Antigo Testamento na história da redenção. Em meu recente livro Israel e a Igreja, procuro esclarecer: “O Antigo Testamento, com todas as suas leis, rituais e tradições, tem sido muitas vezes interpretado de forma equivocada, principalmente por alguns segmentos cristãos, não tão novos como imaginamos, que desde o princípio da igreja tem procurado trazer para dentro da Nova Aliança elementos oriundos das tradições judaicas, culminando naquilo que conhecemos como “cristãos judaizantes”. O Antigo Testamento fornece certamente a preparação teológica essencial para tudo aquilo que emergirá através da Igreja do Novo Testamento. 

A missão de Israel no Antigo Testamento envolvia elementos muito particulares para aqueles dias e tentar transferir estes elementos para os nossos dias, pode certamente nos induzir a erros e a cometer interpretações equivocadas da missão de Israel [...].” [2].

Alguns dos costumes judaicos estão muito mais relacionados com questões de saúde sanitária, devido à sua localização geográfica e questões climáticas do que propriamente com questões religiosas. Já no Novo Testamento, determinadas proibições estavam relacionadas com comida sacrificada a ídolos. Se um cristão judaizante fosse realmente fiel a uma dieta kosher, ele jamais poderia comer em qualquer restaurante que não fosse judaico, ou mesmo na casa de um não judeu. Como isto não acontece, na maioria dos casos, passa a ser uma espécie meio neurótica de exercitar uma crença.

O mesmo acontece com relação às vestimentas, festas e instrumentos judaicos. O shofar, por exemplo, virou moda dentro das igrejas, no entanto, é usado de forma totalmente equivocada em relação ao judaísmo, onde, por exemplo, só homens poderiam soprar o Shofar, em determinados momentos e em determinadas orações. Já fui em uma igreja onde o Shofar é soprado por mulheres, crianças a qualquer hora e momento. O que mostra que na verdade, não estamos revivendo em hipótese alguma o fortalecimento do judaísmo nas igrejas, mas um sincretismo religioso que reúne elementos de todo tipo de religião.

Outra aberração deste segmentos judaizante é a transliteração dos nomes de Deus, e de Jesus para os nomes judaicos. O que é completamente sem sentido. Nem o cristianismo, nem mesmo o judaísmo sacralizaram o idioma. Quando o Senhor Jesus nos enviou a todo o mundo (Mt 28:18-20), incluiu a responsabilidade de repassar ao povo os seus ensinos, e percebemos, que desde o princípio, foi do entendimento dos apóstolos e daqueles que os precederam, que o evangelho deveria ser pregado na língua local e não em grego, hebraico ou aramaico. A crença judaica de um Deus universal não seria compatível com a necessidade de traduzir textos, usos e costumes. O Antigo Testamento foi traduzido na totalidade em Alexandria, no Séc I, a.C. Nos dias de Jesus, por exemplo, os judeus eram livres para usar a língua corrente, grego, aramaico ou mesmo latim. Portanto, essa ênfase em transliterar os nomes de Deus entre outras coisas é outra neurose deste sincretismo.

Outro sinal impressionante deste movimento que não é nem cristão, nem judeu, é a substituição das festas cristãs por festas judaicas. Em primeiro lugar é uma atitude totalmente imprópria, sem relação alguma com o cristianismo, em segundo lugar não é um retorno à raízes judaicas, mas o fortalecimento deste sincretismo estranho. Não vou perder tempo aqui tentando defender o natal, aniversários e outras festas cristãs, pois já tenho isto escrito noutros artigos, mas não podemos deixar de citar o pai da igreja Tertuliano (ano 160-220 d.C.) que disse: “Nós (os cristãos) nada temos com o Sábado, nem com outras festas judaicas, e menos ainda com as celebrações dos pagãos. Temos nossas próprias solenidades: O Dia do Senhor…” A Didaché, um dos documentos mais antigos do cristianismo diz: “No dia do Senhor (no domingo) reuni-vos todos juntos para a fração do pão E dai graças depois de confessar os vossos pecados para que vosso sacrifício seja puro” (Didaché, XIV). Já Inácio de Antioquia, no ano 107 d.C. exorta aos cristãos de seu tempo que “de nenhuma maneira os cristãos devem sabatizar”.

Estes movimentos de sincretismo judaico-cristão-religioso, pois não são meramente judaizantes, para fortalecer suas ideias hereges sugerem ainda uma terceira reforma protestante, que seria o retorno da igreja às raízes judaicas, mas como já observamos não é o que acontece. Na verdade eles negam os pais da igreja, negam a reforma protestante, e consequentemente negam a Escritura ao abandonar a hermenêutica bíblica reformada, ou, o método exegético histórico gramatical, e apegam-se a interpretações isoladas e perigosas das Escrituras, manipulando a Bíblia usando uma pseudo interpretação judaica da Escritura, palavras em Hebraico, mas no fundo só há confusão e heresia. Calvino escreveu em seu comentário sobre Romanos: “É uma audácia próxima ao sacrilégio usar as Escrituras como nos apraz e brincar com elas como se fossem uma bola de tênis, como muitos já fizeram anteriormente… a primeira tarefa de um interprete é deixar que o autor diga aquilo que expressa de fato, em vez de atribuirmos a ele aquilo que achamos que ele quer dizer.”

Meus irmãos as heresias destes grupos que são vários e cada um com um nome diferente, tem como objetivo afastar o crente de Jesus Cristo e da sua obra redentora. Estes grupos – através destas festas, rituais, re-batismos no Jordão e ensinos, procuram enriquecer vendendo ou fazendo parcerias com empresas que vendem pacotes turísticos para Israel, e levas os crentes a negar a fé.

“Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.” – Romanos 1:17


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

SENHOR DE TUDO - PAULO CILAS


 No livro " Acima de tudo" Brennan Manning narra as muitas vezes em que Jesus "foi reduzido" às necessidades, maldades, anseios e caprichos humanos. Assim, foram criados:
    - O Jesus César - É a igreja embevecida com o poder, que posa ao lado de autoridades e acha que assim há maior relevância. Se vê influente por transitar nos bastidores do poder.
     - O Jesus Thomás de Torquemada - Inquisidor que matou e perseguiu milhares em nome de uma disciplina cristã. Quantos há que que em nome da fé desprezam o dom do amor.
      - O Jesus hippie - Revolucionário e anárquico. Quantas baboseiras também hoje em nome de uma liberdade vazia de conteúdo.
      - O Jesus yuppie- O cristianismo  de grife como testemunho da prosperidade do céu. Bens materiais e liturgias bem ajustadas, ora frias, ora extravagantes, representando "a glória de Deus".
  Acrescento ainda "O Jesus Sílvio Santos". Ele pegunta quem quer dinheiro? Abre as portas da esperança e oferece o baú da felicidade, porque o baú Dá fecidade.
   E assim desavisadamente ou não, vamos constituindo e moldando um cristo casamenteiro ou que salva casamentos. Um super nanny que educa nossos  filhos enquanto somos relapsos.
   A igreja desse cristo é apenas um  lugar legal para a família  ignorando que no passado e no presente, e ao redor de todo o mundo, crentes são perseguidos e mortos por se reunirem em nome de Jesus. Então, muitos, se vivessem nessa realidade, deixariam de ser e de ir à "igreja" por ela não ser mais um lugar "legal e seguro".
  Há ainda aqueles que transformam Jesus no personal stylist. Ele determina  ou inspira até bota de couro de píton.
  Contudo, ainda que tentem artificialmente moldar Jesus às mesquinharias humanas, Ele, O Senhor está acima de tudo e de todos.
  
 "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,
A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.
O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;
Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.
Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?
E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz:E todos os anjos de Deus o adorem.
E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo.
Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de eqüidade é o cetro do teu reino.
Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.
E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão,
E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão.
E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?
Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?" Hebreus 1:1-14


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

POR QUE AINDA VAMOS À IGREJA - JÚLIO ZAMPARETTI

Um Deus de promessas e serviço é o que todos procuramos. É isso que esperamos sentados e de mãos estendidas, pedindo que algo se nos dê, que alguma coisa aconteça. Mas será que realmente cremos em Deus? Não estaríamos depositando a fé, na verdade, numa espécie de Superman? Afinal, para que nos serve esse Deus?

Volto a me perguntar: por que ainda vamos à igreja? O que procuramos nela? 

A resposta que ouço não é a mesma que vejo. Porque os nossos lábios dizem que vamos à igreja “adorar ao Senhor”, ao passo que nossas atitudes mostram que vamos massagear nosso próprio ego, pois saímos de lá tão presunçosos e cheios de si, que tornamo-nos incapazes de nos identificarmos com os pecadores, pobres e miseráveis com quem Jesus se identificou, andou, serviu, conversou, sorriu, festejou, comeu e bebeu.

Nossos lábios dizem que vamos “encontrar a Deus”, mas nossas atitudes mostram que não podemos vê-lo, porque só vemos maldade e malícia em tudo o que nos rodeia. 

Nossos lábios dizem que queremos ser cidadãos dos céus, todavia nossas atitudes mostram que, cada vez mais, estamos acorrentadas às futilidades e riquezas terrenas, de maneira que fizemos delas a própria razão de nossa fé.

Nossos lábios dizem que queremos ser felizes, mas nossas atitudes mostram somente a infelicidade de apenas anestesiarmos nossas almas, já não sendo mais capazes de alcançar a felicidade de chorar com os que choram. 

Nossos lábios dizem que almejamos alcançar a misericórdia divina; no entanto, nossas atitudes mostram a impossibilidade disso, pois nos afastamos dela cada vez que a negamos a quem quer que dela necessite. E a despeito de tudo isso, ainda esperamos que Deus faça alguma coisa, que nossas orações mudem tudo e todos, mas nós mesmos não mudamos.

Deus não se fez um super-herói, se fez homem. Não fez por nós as coisas que devemos fazer, mas serviu sim de exemplo para que nós o seguíssemos, tomando nossa cruz e fazendo o que está à nossa mão para fazermos. Deus também não nos deu as respostas prontas. Como fez no passado, ainda hoje faz, nos leva a olharmos para o nosso interior e buscarmos as respostas no íntimo de nosso consciente, e depois disso, assumirmos as responsabilidades que venhamos a contrair através de nossas respostas e escolhas, principalmente quando, por conta delas, necessitarmos pedir perdão.

A igreja não existe para nos conduzir a um caminho de poder, mas sim para nos fazer entender nossas fraquezas e seguirmos a trilha da humildade e compaixão; não existe para nos fazer deuses, mas sim para nos tornar mais humanos, pois é justamente na nossa humanidade que Deus é revelado, e na nossa fraqueza sua força é manifestada. Afinal, assim como por uma humilde mulher nasceu o próprio Deus, assim também, em nossa pobre humanidade o Cristo é gerado. Ao que o anjo diz: “não temas receber Maria”, direi, então: não temas receber a humanidade do ser, não temas ser humano. A igreja não existe para aliviar a nossa consciência atulhada pelo nosso descaso com as causas ambientais e sociais, mas sim para nos comprometer com a luta por um mundo melhor, sem fome e mais justo. Se algo diferente disso existe - e lamentavelmente existe - com certeza não é igreja.

A igreja não existe para guardar a sua alma, mas sim para salvar o mundo.






Uma esquerda religiosa e sem esperança - Filipe Samuel Nunes em Gospelprime

As pilhagens e o gosto pela violência que atravessa os Estados Unidos têm surpreendido o mundo. Alguns argumentarão que o problema racial é...